quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chris Beomont
— Capítulo cinco —

Acácia Artt
Já passava das cinco da madrugada quando Chris aterrissou, desajeitado, pela varanda do próprio quarto. Salto a longa distância definitivamente não era sua especialidade.
   Uma semana havia passado desde o primeiro enviado da corte. Chris já entendia que sua primeira impressão a respeito de Zacarias, fora um tanto equivocada. A essa altura, compreendia que todas as ordens absurdas faziam parte de um treinamento. Um treinamento intenso, brutal, mas acima de tudo: necessário!
   As luzes do quarto permaneceram apagadas, já que de algum modo curioso, Chris parecia circular entre a mobília, sem que esbarrasse em nada.
   Sua respiração soava alto em seus próprios ouvidos. Estava exausto, irritado e ferido. Mas ainda assim satisfeito. Satisfeito pela primeira vez acreditar estar no caminho certo. Retirou a camiseta salpicada de sangue, socando-a com brutalidade em um saco de lixo, que escondera rapidamente embaixo da cama. Precisaria dar um fim naquilo, mas isso poderia esperar até de manhã. Então caminhou até o banheiro, onde avaliou o profundo corte no antebraço esquerdo. Poderia regenerá-lo em poucos minutos, mas estava exausto demais para tanto. Resolveu entrar para um banho quente e relaxante, onde permaneceu por alguns minutos.
   Sua cabeça estava pesada, cheia de informação. Tarefas e missões que precisaria concluir em pouco mais de um ano. E também havia a volta às aulas; o uniforme pendurando na porta do closet não o deixava esquecer.
   Chris deixou o banheiro consultando o relógio sobre a cabeceira da confortável cama de casal. Passava da cinco da manhã: o sol surgiria a qualquer instante, e desanimado se atirou sobre a cama, a toalha úmida encharcando o lençol. Fechou os olhos e segundos depois adormeceu.
   Quando acordou, uma hora e meia depois, continuava exatamente na mesma posição, e para o seu desagrado, os raios de sol invadiam o aposento pela varanda aberta, nunca antes parecendo tão opressor. Chris ainda sentia dores no antebraço, mas ao olhá-lo percebeu que esse havia se regenerado do ferimento durante o sono, parecendo novo em folha.
   Então saltou da cama, adiantando-se ao uniforme pouco à frente. A calça de alfaiataria preta fora vestida em um pulo, a camisa branca abotoada; saltando alguns botões, tamanho era o sono.   Então vestiu o par de sapatos, e o blazer negro, fitando rapidamente o brasão de Acácia Artt, e laçou a gravata de cor branca, cinza e violeta. Seguindo para o andar debaixo.
   Ainda na escadaria, deparou-se com uma grande circulação: garçons que ele nunca vira antes, correndo apressados, com bandejas de prata repletas de alimentos. Como se tentassem esconder tudo, o mais rápido possível, desaparecendo pela porta que levava a cozinha.
Selma coordenava tudo, ainda que parecesse extremamente distraída. Ao ver o filho descendo as escadas arregalou os olhos, desconcertada.
    — Bom dia querido! — apresou-se a dizer. — Acordou cedo! Já está pronto?!
   Chris que exibia o nó de gravata mais desleixado que poderia existir. Confirmou com a cabeça, e pouco depois olhou em volta, fitando três longas mesas repletas de alimentos, serem desmontadas rapidamente.
    — Bom dia mãe! — resmungou desconfiado. — Para quem é toda essa comida? Por acaso estamos dando um café da manha?
   Por uma fração de segundo o rosto de Selma se enchera de um vermelho escarlate, e ele pôde entender tudo. Sua mãe provavelmente anunciara um café da manha, na tentativa de reintegrar o filho na alta sociedade, que lhe dera as costas há seis anos. E após perceber que nenhum dos convidados viria, apressou-se em esconder tudo antes que ele acordasse.
    — É! — começou Selma sem jeito. — Sabe como a Olivia é... Atrapalhou-se com as datas e... bom... quem viria em um café, justo no primeiro dia de aula, não é?!
   Chris assentiu de forma displicente. Fingindo acreditar plenamente na mãe, que parecia a cada segundo mais desconfortável. Pouco depois acenou para os garçons pararem de recolher a mesa, e se serviu de alguns croissants, uvas, e suco de maçã.



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   Uma babá vestida de branco apareceu no hall, trazendo nos braços um bebê sorridente. Selma rapidamente adiantou-se para a empregada, apanhando a filha de seus braços.
    — Olha só quem acordou! — suspirou a mãe, com uma patética imitação de criança. — Viu o seu irmão, Natália? Você o viu?
   O bebê de apenas alguns meses de vida sorriu abertamente, exibindo a boca sem dentes, e gesticulando os bracinhos gordos para Chris, que não deu a mínima atenção.
    — Você gosta dele? — perguntou Selma para a filha, que parecia se divertir como nunca, tentando se lançar ao colo do irmão a alguns metros de distância. — Acho que ela quer ir ao seu colo querido.
   Chris rapidamente ergueu o prato, como se dissesse “estou comendo.” E com isso seguiu para outra sala, dando as costas para as duas. Selma o seguiu carregando a filha ainda entre os braços.
    — Como está se sentindo? — sua pergunta fora direta, e ainda que fosse uma mulher incrivelmente elegante e discreta, parecia uma criança insegura, quando o assunto se tratava do próprio filho.
    — Com fome!
    — Eu digo sobre voltar a estudar! Sabe? Voltar a Acácia Artt... Pessoas da sua idade! Não está preocupado, está? Acha que consegue voltar a sua antiga vida?
    — MÃE! — atalhou ele, com a boca cheia de suco. — Eu estou bem, o.k?! Não precisa se preocupar com nada...
   Selma contraiu o rosto, e por um momento ele acreditou que a mãe cairia no choro.
    — Ah querido, eu fico tão apreensiva... Você passou tantos anos naquele lugar medonho... Imagino como tudo isso é novo e assustador...
   A babá retirou-se para a outra sala. Parecendo acanhada e ao mesmo tempo apavorada. Todos os funcionários da família pareciam aterrorizados ao terem que trabalhar próximo ao garoto.
   Selma logo largou a filha no colo da empregada, e se adiantou a Chris ajeitando sua roupa com habilidade.
    — Deixe-me arrumar essa gravata!
   Então retirou a gravata de seu pescoço, lançando-a rapidamente. Depois desabotoou a camisa branca, abotoando-a em seguida de forma correta.
    — Precisa de um cinto! — suspirou, olhando de longe o visual do garoto. — Definitivamente precisa de um cinto... Olivia?!
   Chamou pela governanta:
    — Será que pode apanhar um cinto para o Chris?!
   Terminar o café da manhã fora mais complicado do que podia prever. Selma não parara de tagarelar um só minuto.
    — Você acha que precisa de mais tempo? Tudo o que estou fazendo é para o seu bem... Se achar que não está preparado podemos continuar com aulas particulares, até que você esteja pronto! — disse ao fim, onde sua voz vacilou.
    — Não mãe! Estou bem! — respondeu com convicção. — Vai dar tudo certo!
   Terminou a frase sorrindo, com a esperança de dissipar o clima de tensão que havia surgido.
   Chris estava realmente faminto; enquanto sua mãe falava, ele se servira de tudo, ou quase tudo que encontrara entre as mesas.
    — Amigos! Namorada! Eu quero tanto que você tenha direito a tudo isso, sabe?! Como os jovens da sua idade! Você é tão bonito! Não acha que estou te pressionando, não é?! Porque realmente não estou! Tudo ao seu tempo querido! Você ainda é jovem, e tem muito pela frente!
   Já que Selma não se cansaria de falar tão cedo. O jeito era deixar a casa e ainda que tivesse adiantando, seguir para Acácia Artt.
    — Boa sorte, querido! — desejou a mãe antes que ele pudesse entrar na limusine. — Quando chegar ao colégio vá à diretoria e procure por Suely. Ela me pareceu atenciosa, tenho certeza que ficará feliz em lhe reapresentar o campus.
    — Vou procurá-la. — mentiu imediatamente, acenando para a mãe que se mostrava ainda mais apreensiva do que antes.
   Chris não estava nenhum pouco preocupado com o que encontraria pelo colégio. Não se interessava em fazer amizade, e nem em ter uma vida como os jovens da sua idade. Ele era diferente. Completamente diferente de todos, e com esse pensamento relaxou o corpo no confortável banco de couro.



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   O caminho para Acácia Artt parecia mais curto do que podia se recordar. O carro havia deixado o condomínio há no máximo vinte minutos, e já entrava pela longa Avenida Omi Sacachi. Onde virou à direita, subindo uma ladeira por onde se vislumbrava o campus do colégio; reinando de forma soberana, em cima de uma colina.
   O carro reduziu a velocidade parando à frente de um grande e trabalhado portão de aço, e pouco acima dele, era possível ler o seu lema em letras redondas, e douradas:
   “Acácia Artt: a arte da disciplina acadêmica para jovens privilegiados.”
   O motorista apresentou sua autorização pouco depois, adentrando o extenso campus do colégio. Era surpreendente como tudo havia mudado em seis anos. O campus parecia duas vezes maior, e o estacionamento abarrotado de carros importados um tanto menor.
   Chris saltou do carro, deixando os olhos correr pelo imenso terreno à frente. Parecia outro colégio, ainda que pudesse reconhecer as grandes escadarias de pedras, que levavam do estacionamento ao patamar superior.
    — Venho buscar-lhe às três em ponto? — perguntou o chofer cheio de receio.
    — É, eu acho que sim! — respondeu Chris pouco ausente.
   Precisava de no mínimo três cabeças, para observar todo o colégio.
   Logo outros carros de luxo, foram parando atrás da limusine, e uma multidão de alunos engravatados começara a circular pelo lugar. Chris se sentira repentinamente ridículo dentro do uniforme engomadinho que vestia. Mas ao ver que todos ao redor se vestiam exatamente igual, deu de ombros adiantando-se à escadaria, onde uma dúzia de calouros circulava em meio a conversas calorosas. Alguns olhavam para ele de esguelha, mas não se demoravam, seguindo em frente.
   “Quem diria que eu realmente voltaria a esse lugar?” Pensou enquanto afrouxava a gravata incômoda e apanhava o cronograma com as aulas impressas de um dos bolsos.
    — Ei! — suspirou um aluno ruivo e grandalhão, emergindo ao seu lado na escadaria. — Eu te conheço de algum lugar, não conheço?!
   Chris se voltou para o lado encarando-o desinteressado. E ainda que seu rosto fosse vagamente familiar, respondeu com frieza:
    — Não faço ideia! — e seus olhos tornaram a examinar o cronograma, que dizia: Biologia com Antonia Alves: 07h20min, prédio A, terceiro andar, sala 137.
   Chris olhou duvidoso para o interminável terreno repleto de quadras. Perguntando-se onde seria o prédio A? Existia um edifício uns vinte metros à frente. Mas não havia nada que o identificasse como A, ou B.
   Certo, pensou enquanto observava tudo ao redor, convencido de que não precisaria de ajuda. É só um prédio, não deve ser realmente difícil encontrá-lo. Então continuou em frente   atravessando um jardim bem cuidado, e adiantando-se a outro lance de escadas. Um grupo de alunos cruzava o pátio próximo de onde ele estava. Então aconteceu...
   Um grito curto e abafado, seguido de um burburinho conspiratório.
    — Deus do céu! — murmurou uma veterana alta e magricela, ao lado do namorado. — É o Chris! — concluiu, como se o conhecesse bem.
   Antes mesmo que ele pudesse se virar e defrontar o casal. O aluno ruivo, que puxara assunto há um minuto, havia atravessado seu caminho, estacionando a alguns metros acima da escada.
    — Já sei quem ele é! — rosnou cercado por outros três amigos grandalhões. — Voltar a esse colégio, depois de tudo o que fez... É muito abusado mesmo!
    — Chris Beomont?!
    — Ele está de volta?
    — O assassino está de volta?!
   Chris que mantinha a maior parte da atenção no documento impresso em mãos. Ergueu a cabeça curiosa.
   Em poucos segundos a notícia sobre seu retorno havia se espalhado como serragem ao vento, e uma multidão de alunos o encarava, em meio a murmúrios apreensivos. O medo se tornara nítido em olhos e rostos curiosos.



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   Por um segundo, precisou conter a vontade de cair na risada. Era como ser um leão cercado por ovelhas inúteis e frágeis. Ainda que tentasse intimidá-lo por sua maioria, fugiriam no primeiro sinal de perigo.
   Pedir informação não parecia muito aconselhável, concluiu mentalmente, sentindo uma agradável e divertida sensação de poder.
   Chris se virou contemplando que em ambos os lados, todos os olhares caíam sobre ele. E com certa maldade, resolveu descer as escadas, esperando que abrissem caminho. Era uma forma de desafiá-los. E ainda que mirando os próprios pés, pôde vislumbrar buracos se abrirem na multidão de alunos. E foi aí que se deparou com ela:
   Pouco à frente subindo um lance de escadas, uma garota parecia irradiar os raios de sol por seus cabelos louros dourados. Ela era alta como uma top model, dona de um rosto branco, levemente rosado, onde profundos olhos azuis claros eram emoldurados por grande cílios.
Talvez fosse sua postura esnobe, seu estilo praticamente perfeito, ou a forma elegante que caminhava equilibrando-se com a habilidade de uma garça. O que era exatamente, Chris nunca saberia dizer. Apenas que era linda, tão linda como alguém poderia ser...
   Ambos os olhares se cruzaram, e com um frio na barriga ele percebeu que não deveria existir ninguém mais bonita, gostaria de olhá-la para sempre se pudesse.
    — Taylor! — as palavras simplesmente escaparam por seus lábios, e por um segundo tudo ao redor deixou de existir...
    — Chris! — uma voz distante parecia chamá-lo. — Chris Beomont?! É mesmo você?
   Aos poucos ele foi voltando à realidade, onde outra aluna parecia chamá-lo insistentemente.
    — Chris! Eu realmente não acredito que é você mesmo! — suspirou em êxtase parando ao seu lado na escada. — Lembra de mim? Éramos grandes amigos na sexta série!
   Por um segundo ele encarou a jovem. Uma bela negra de cabelos armados, onde os cachos bem delineados caíam sobre os olhos.
    — Gisele?!
    — Sim! — respondeu soltando um gritinho de euforia. — Pelo visto os seis anos de hospício não foram o suficiente para derreter o seu cérebro, não é mesmo?! Sempre soube que você era durão...
   Ele sorriu. Mas não pela falta de tato da antiga amiga, e sim porque Taylor se voltara para trás, procurando-o, antes de partir de vez.
    — Vejo que já conhece a Taylor, não é?! — concluiu Gisele apanhando o braço do amigo sem cerimônia, e conduzindo-o para o piso superior. — Ela mudou muito desde que você deixou o colégio...
   “Viu a tiara de brilhantes sobre a cabeça dela? Significa que é a nova miss-futilidade do campus.”
    — O quê?! — indagou ainda ausente na conversa. — Do que você está falando?
    — Horas, da Taylor! — respondeu displicente conduzindo o amigo. — Vi a forma que olhou para ela!
    — Não! Eu não olhei da forma que está imaginando. Só percebi que a conhecia... Só isso! — mentiu rapidamente sentindo-se desconfortável.
    — Tanto faz! — a amiga deu de ombros. — Conte-me todas as novidades? Vai mesmo estudar ate o final do ano? Qual a sua primeira aula? Passe-me o seu cronograma para eu dar uma olhada...
   Tudo estava caminhando rápido demais. Ele empurrou o bilhete para a amiga, ainda sentindo a cabeça ausente, e centenas de olhos o seguirem por todos os lados.
    — Biologia com a professora Antonia. — Leu. — Que sorte, estamos na mesma turma!
    — Estamos? — perguntou duvidoso. Não planejava fazer amigos, tão pouco reencontrar algum.
    — Sim! Que máximo, não?!
   Gisele apresentou brevemente o campus de Acácia Artt, passando por todas as quadras, uma grande e antiga biblioteca, uma pequena capela, até chegarem à frente do imponente prédio A, onde as trepadeiras já haviam coberto tudo, deixando apenas as portas, e janelas visíveis.
    — Conheço esse lugar! Afirmou feliz de ver algo que não mudara absolutamente nada. — Então esse é o prédio A!



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   Ainda que jamais desse o braço a torcer, encontrar Gisele fora realmente maravilhoso. Além de a amiga servir como guia. Era bom ter com quem conversar, já que até dentro das salas de aula, os demais alunos preferiram evitar sentar-se próximo a ele, deixando um espaço estranho e desregular ao centro da sala.
   Os professores, por outro lado, pareciam dispostos a lhe ajudar, não dando atenção aos rostos apreensivos, que se viravam sempre que alguém chegasse próximo de onde estava sentado.
    — Não costumo fazer isso! — informou Alma, a professora de matemática. — Porém vou abrir uma exceção; pode entregar o seu trabalho até o fim do dia...
    — Obrigado. — agradeceu sentindo-se grato pela gentileza.
Minutos depois a professora se voltava ao resto da turma.
    — Tempo encerrado! Entreguem-me o trabalho agora, não vou tolerar mais nenhum segundo! Eu vi isso senhorita Muller... Já para a detenção!
   No intervalo para almoço Gisele deleitava-se com os calouros assustados que pareciam evitar o amigo recém chegado, como se temessem serem assassinados ali mesmo.
    — Como são patéticos! — suspirou enquanto se servia de suco de tomate. — Achar que você poderia matar alguém? Francamente, você não mataria nem uma mosca!
   Chris não confirmou, tão pouco negou. Apenas continuou o almoço olhando vagamente para os lados, a procura de Taylor. E com isso pôde avistar uma bela jovem de cabelos vermelhos, aproximar-se da mesa redonda, onde o casal de amigos fazia o desjejum, e sentar-se em uma das cadeiras vagas, de forma pomposa e acenando para outro aluno se juntar a eles.
    — Olá! Cumprimentou ela, direcionando-se somente a Chris, como se não tivesse visto Gisele.
    — Eu me chamo Mia Vesson! — cumprimentou com desdém, indicando o amigo que se juntara a ela. — E esse é o Bruno!
   Bruno era um jovem de estatura baixa, ar arrogante, e cabelos louros jogados para o lado. Sentou-se rapidamente, acenando com má vontade para Chris e Gisele, como se isso fosse um verdadeiro fardo.
   Os dois amigos encararam a dupla sem ter ideia de onde eles queriam chegar. Até que Mia tornou a falar, dessa vez com mais objetividade.
    — Sou editora-chefe do jornal de Acácia Artt, e o Bruno o novo fotógrafo...
   Chris de repente percebeu que Mia usava uma tiara de brilhantes sobre o cabelo ruivo, semelhante a Taylor. E mesmo que não tivesse decidido se gostava ou não da garota, achou melhor tratá-la bem, temendo que essa pudesse falar mal dele para a amiga.
    — Vocês dois devem estar se perguntando que assunto uma pessoa popular como “eu”, teria a tratar com vocês?! — suspirou Mia sem falsas modéstias.
   Gisele que a encarava com deboche, assentiu rapidamente, e quando disse foi o mais irônica possível.
    — Realmente miss-popularidade. É como ter a própria Britney Spears sentada a nossa mesa... Será que você pode me dar um autógrafo?
   Mia retribuiu o olhar, como se Gisele fosse algo repugnante que grudara a sola de seu sapato.
    — Deve ser realmente uma honra para o psicopata, e a Zé ninguém do campus... Qual é mesmo o seu nome querida? — e antes que a amiga pudesse responder, Mia concluiu. — Quem se importa mesmo?!
   “Enfim, o diretor quer melhorar a sua imagem Chris... Não que ele se importe com a sua popularidade, é claro. Contudo, a notícia sobre o seu retorno, está se espalhando, e os pais podem começar a tirar os filhos do colégio... Já pode imaginar o desastre, não?!”
    — Melhorar a minha imagem? — repetiu Chris, como se não tivesse escutado bem. — E como isso seria possível.
    — Caridade! — disse Bruno, como se essa fosse a ideia mais lógica do mundo.
    — Caridade?!
    — Sim, sim! — completou o garoto. — Hoje às três da tarde será a reinauguração da biblioteca, que fora completamente reformada, graças a uma generosa doação da sua família.
   O choque sobre a notícia fora tão grande para Chris, quanto para Gisele, que arregalou os olhos soltando um assobio baixo e implicante.



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    — Pelo visto a dona Selma aprendeu bem a arte do suborno! — resmungou Chris desconcertado. — Sem dúvida a especialidade do meu falecido pai...
   Agora entendia bem porque Acácia Artt o aceitara de volta, mesmo depois do escândalo que sucedera há seis anos.
   Bruno deu de ombros, e quando tornou a falar mostrou desinteresse.
    — O importante é você estar ao lado do Cid quando o laço da inauguração for finalmente cortado, entende?! Política! E com isso fingiu fotografá-lo com uma câmera invisível.
    — Só isso?! — perguntou Gisele sufocando a vontade de rir. — Acha mesmo que isso resolve as coisas?
   Bruno se preparou para responder, mas Mia fora mais rápida, lançando um profundo olhar de censura para a garota.
    — Alguma ideia melhor sabichona?
   Chris não pôde ouvir a resposta da amiga, nem tão pouco a discussão calorosa que irrompeu na mesa. Seu celular tocara, e com um mal estar na boca do estômago, teve que se afastar do refeitório, atendendo a ligação de forma discreta e cautelosa.
    — Chris?! — chamou uma voz grave, que ele identificou como a de Zack. — Chris? Você esta aí? Chris?!
    — Sou eu Zack! — murmurou em resposta. — Pode falar.
    — Certo, eu preciso que você faça um favor para mim.
   Chris sentiu o estômago despencar. Simplesmente odiava seus pedidos de favor.
    — Que tipo de favor? Ainda estou no colégio, e mesmo que seja importante não tenho como sair...
    — Eu sei! — respondeu Zack. — Não precisa sair daí, alias, é até melhor que ainda esteja no colégio.
    — Por quê? Não espera que eu...
    — Quando terá sua primeira aula de química?
   Por um momento Chris precisou conter o impulso de arremessar o celular para longe. Estava em seu primeiro dia de aula, e nitidamente se meteria em problemas.
    — Eu não vou roubar nada! — afirmou com convicção, prevendo o tipo de favor que Zacarias lhe pediria.
    — Não temos escolha Christian! — soou a voz áspera.
    — Claro que tenho! — argumentou nervoso, e ao ver um grupo de alunos passarem ao seu lado tornou a sussurrar. — Independente do que seja, eu posso comprar...
    — Não! Isso realmente você não poderá comprar! É uma especiaria em nosso mundo, e um medicamento controlado no mundo dos mortais...
    — Especiaria! — repetiu tentando ganhar tempo — De qualquer modo... Só terei aulas no laboratório na sexta-feira... Agora preciso desligar, nos falamos mais tarde, o.k?! — Mentiu encerrando a ligação, tão irritado quanto poderia estar.
   Se Zack desejava algo guardado dentro de Acácia Artt, cedo ou tarde, entraria lá para buscá-lo. E Chris que sabia bem disso, chegou à conclusão que a única alternativa que havia restado era fazer primeiro, para fazer do próprio jeito.
   Mais tarde no mesmo dia Chris entregou o trabalho terminado de matemática, para a professora Alma, vislumbrando Taylor como pôde.
   Ao sair da sala caminhou apressado para o laboratório de química. Situado um andar acima de onde estava.
   Por sorte, não havia ninguém no caminho para atrapalhá-lo, a essa altura a maioria dos alunos estava na reinauguração da biblioteca.
    — Abra! Ordenou para a porta, que após um click, abrira gentilmente para o lado.
Entrou sorrateiro para o lugar que estava escuro e sombrio. Havia pelo menos trinta mesas, altas e retangulares, onde os alunos costumavam sentar em dupla. Agora só precisaria saber o que pegar. Então retirou o celular do bolso, discando o número de Zack, que pela primeira vez, não parecia disposto a lhe atender.
    — Que droga! Resmungou enfurecido, remexendo em um armário repleto de frascos e seus nomes complicados.



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   Sem o nome correto da especiaria, havia entrado em vão. E ainda que as circunstâncias indicassem isso, ele se recusava acreditar. Então discou novamente.
   Passos apressados soaram próximo a suas costas. E então...
    — Você não deveria estar aqui! Afirmou uma voz feminina.



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