Chris Beomont
— Capítulo nove —
A mansão negra
Por
um momento tudo pareceu confuso. Sua cabeça latejava, e seu corpo inteiro, era
arrastado com brutalidade.
— Está tentando se matar?! — rosnou
Zacarias, aos poucos se tornando nítido em sua visão invertida.
Chris tentou erguer a cabeça.
— Como ela está? — perguntou sentindo-se
mais fraco do que jamais estivera na vida.
Chris se empenhara tanto para reviver a
garota, que acabara desmaiando com a investida.
— Vai ficar bem — resmungou Zack em
resposta, largando o garoto de qualquer jeito, próximo a parede e dando as
costas ao amigo adiantou-se para acender um cigarro.
Chris engoliu em seco, a cabeça girava; a
boca seca, o corpo inteiro dolorido. Seus olhos então correram de Taylor, caída
metros à frente, até Zack, que fumava sem pressa apoiando em uma das estátuas
que ladeavam o corredor.
A sensação que o invadira, ao vislumbrar
Taylor completamente recuperada, o invadiu de tal modo, que por mais de um
minuto não pôde pronunciar nada, apenas grunhidos sem sentido.
Zack o encarou com desdém.
— Sabia que não pode fumar aqui, não é?! —
suspirou Chris, tentando conter a euforia: Taylor estava viva.
Zack não lhe deu atenção, ao invés disso,
resmungou com habitual tom de voz agressivo.
— Quer dizer que agora se importa com
humanos?! — a afirmação dita pelo homem parecia de alguma forma ridícula,
ouvida por outra pessoa. — Está tentando se redimir com a sociedade ou coisa do
tipo?!
Chris tentou levantar, mas ao fazer isso,
sua cabeça girou trezentos e sessenta graus impedindo-o.
— Não salvamos humanos, e você sabe disso!
— continuou Zack com o sermão.
Chris havia arriscado tudo para salvar a
garota, e somente agora que ela estava bem, a ficha começava a cair. Havia
desacatado uma ordem direta e quebrado uma lei valiosa em seu mundo. Estava encrencado, talvez nunca chegasse a
ser o que tanto almejava...
— Não me importo com humanos! — adiantou-se
rapidamente, percebendo um lenço amarrado em torno do punho. Zack havia
estancado o seu sangue, salvando sua vida.
— Não se importa?! — perguntou irritado —
Então me diga! O que foi tudo isso?
— Foi por ela! — sua resposta fora sincera
e pouco inteligente. — A Taylor não é qualquer humano... ela... ela é especial.
Zack franziu a testa intrigado. E por um
minuto se perguntara se havia a possibilidade do que ele dizia ser verdade.
— Especial... ou especial para você?!
Houve um segundo de indecisão onde ele
avaliou bem o risco que corria falando a verdade.
— Para mim, é claro! — e seus olhos
correram do amigo até Taylor, ainda estirada ao chão. — Não me importo com o resto...
Chris jamais saberia explicar que tipo de
poder Taylor exercia sobre ele. Sempre que se deparava com ela seu coração
disparava, suas mãos pareciam gelar, e uma euforia o invadia, fazendo dele o
homem mais feliz do mundo.
Zack balançou a cabeça negativamente, e
quando tornou a falar parecia mais debochado.
— Apaixonado por uma humana! —
ridicularizou. — Simplesmente decadente... Nunca se tornará um de nós enquanto
se deixar levar por sentimentos.
— Eu lamento! — suspirou timidamente.
E uma sensação ruim o dominou. Era vergonha,
vergonha de ter sentimentos, vergonha por se importar verdadeiramente com outra
pessoa. Chris retirou o lenço do pulso que Zack usara para estancar o
ferimento. Então se concentrou, e em poucos segundos o sangue retrocedeu
fazendo o corte desaparecer como se nunca tivesse existido.
— Vai me entregar? — fora impossível conter
a pergunta. — Nunca me tornarei um...
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— Sorte a sua não ter nada a ser entregue.
— atalhou Zack bruscamente. — Não duvide que não o entregasse! Sigo a risca as
leis do meu mundo... Do mundo que você almeja entrar! Sobretudo você não
quebrou nenhuma lei! Ainda que ter sentimentos humanos seja uma vergonha, não é
crime... E uma maldição claramente proibida fora usada contra os dois humanos
em questão. E isso lhe dá o direito de tomar partido... se tiver o interesse, é
claro!
Chris sorriu, não acreditando nos próprios
ouvidos. Não havia quebrado nenhuma regra. Impedira Taylor de morrer, e ainda
assim poderia continuar os testes para, enfim, se juntar a Zack, em seu mundo.
— Como secretum, você deveria conhecer bem
essa maldição! — tornou Zack, consumindo o cigarro lentamente. — Seu nome é:
Gildelia Lehmann! Foi bem comum na era moderna. Deu um trabalho e tanto para
corte... Centenas de secretuns como
você perderam a vida tentando impedir que se alastrasse!
Agora que Zack tocara no assunto, Chris
começara a recordar que já ouvira falar disso.
— Click! Click! Click!
Alguém entrava pelo corredor. O garoto, que
ainda se encontrava fraco demais para levantar, olhou alarmado para Zack, que
por sua vez, não retribui o olhar.
— Click! Click! Click!
Uma sombra emergiu pelo corredor, deslizando
apressada até onde os dois se encontravam. Taylor continuava inconsciente, não
havia tempo para fugir ou explicar, de fato, o que tinha acontecido.
Chris se desesperou.
— Eu, eu posso explicar! — adiantou-se,
apoiando os braços na parede, para ficar de pé.
Sua cabeça ainda girava, e o corpo se
encontrava fraco. O vulto prosseguiu, até se tornar visível. Era Gisele, sua
colega de classe. A garota parecia alarmada, os olhos arregalados.
— Foram vocês que usaram essa magia?! — perguntou
sem rodeios, exibindo os cabelos cacheados, ainda mais arrepiados do que
normalmente eram.
— Claro que não! — respondeu Zacarias com
naturalidade, largando a bituca de cigarro no chão, e pisando em cima.
— Ufa! Vocês teriam um problema e tanto se
tivessem feito isso. — disse em tom de quem conhecia o assunto. — Gildelia
Lehmann: maldição proibidíssima... Pena de morte, sem julgamento, para quem a
usar!
Zack fez que sim com a cabeça, apoiando-se a
parede com displicência. Gisele prosseguiu.
— Um
clássico. Pude sentir a energia a quilômetros de distância.
Chris pôde sentir o estômago dar
cambalhotas. Zack estava mesmo conversando com uma das estudantes de Acácia
Artt? Como Gisele simplesmente entedia do assunto? Ou pressentiu magia sendo usada
de tão longe?
— Espere um pouco! — suspirou atordoado,
tentando esclarecer as coisas — Vocês dois se conhecem?!
Ambos assentiram, voltando a conversa.
— Alguém morreu? — perguntou a garota,
enquanto os olhos corriam de Zack para Taylor, ainda estirada ao chão — É a
Taylor?! Vocês... salvaram uma humana?
Em sua voz se tornou nítido o desprezo.
— Foi ele! — acusou Zack na mesma hora,
apontando para Chris como um irmão mais velho dedurando o caçula para os pais.
— Uhm! Não posso dizer que estou surpresa,
já tinha reparado na forma em que você a olha. — esclareceu voltando-se para Chris.
Ele encarou a amiga que, pela primeira vez,
parecia a velha Gisele de sempre.
— Não seria uma morte natural, não é?! —
agora que sabia não ter infringido nenhuma regra havia se apegado a desculpa
como se sempre tivesse consciência disso. — Pela lei, eu tenho direito de tomar
partido pela vida do humano em questão se, claro, eu quiser fazer isso... e...
bom, como ela estuda em Acácia...
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— Ah, corta essa Chris! — interpelou Zack
parecendo zangado. — Você gosta da humana, admita isso!
Gisele pareceu decidida em congraçar os dois
amigos, e então tornou a falar, ignorando o comentário de Zacarias.
— O.k, já que vocês decidiram salvar a humana,
é melhor fazer o trabalho completo. E temos pouco tempo para isso! Então tratem
de arranjar uma nova proteção. Eu cuido da garota e de todo o resto.
Chris mal tivera tempo de assimilar tudo o
que estava acontecendo, e novas informações eram despejadas em sua cara.
— Nova proteção? Do que você está falando?
— perguntou incrédulo.
Zack, que aparentemente conhecia o assunto,
fez sinal para ele se calar.
— Certo! Se vamos atrás de um agiota
precisamos terminar antes que a garota acorde, ou o feitiço não será eficaz! —
afirmou cruzando o corredor até Taylor, e cortando uma mecha de seu cabelo.
— Agiota? — perguntou Chris, sentindo um
calafrio perpassar o corpo — Vamos mesmo atrás de um deles?
— Só se você quiser mesmo que a princesinha
sobreviva! Eu particularmente acho que, sem proteção, ela não passa da primeira
semana.
Chris assentiu, e lançou um último olhar
para Taylor. Ainda que quisesse estar presente quando ela despertasse era
melhor partir, e garantir que algo assim jamais tornasse a acontecer. Então, ele correu como pôde seguindo Zack.
— Relaxa, ela vai ficar bem! — acrescentou
Gisele, fitando o vulto dos dois amigos desaparecem por uma porta de metal.
A forte tempestade ainda castigava o grande
terreno de Acácia Artt. Chris correu como pôde, sentindo o corpo se recuperar
aos poucos da grande perda de sangue. Zack já havia saltado o grande muro que
cercava o campus de Acácia Artt, aguardando Chris, dentro de um Porsche azul
marinho.
— Na próxima vez tente se manter consciente
enquanto doa o sangue para um humano! — resmungou assim que Chris sentou no
banco do passageiro ligeiramente sem fôlego. — Coloque o cinto!
Um segundo depois o carro partia em alta
velocidade cantando pneus em meio o temporal. Chris pôde sentir as costas
colarem junto ao banco de couro.
— Eu preciso que você me esclareça algumas
coisas! A Gisele é uma de nós?!
Zack parecia mais preocupado com a pista
escorregadia do que com as dúvidas que Chris pudesse ter. A tempestade
tamborilava por cima do carro e pelo painel era difícil distinguir o caminho à
frente.
— Não costumo chamá-la pelo nome! Mas a
resposta é sim, ela é uma de nós.
Chris engoliu em seco, sem ter certeza se
gostava ou não da ideia. Zack fizera uma curva larga, onde os pneus derraparam
no solo escorregadio.
— Mais alguma pergunta?
Perguntas não faltavam. Restava a Chris
decidir quais delas eram prioridades, já que conhecia bem o gênio do amigo, e
esse não dispunha de muita paciência para explicar nada que não fosse
extremamente crucial.
— Existe mesmo alguma forma da Taylor
recuperar a proteção? Sabe?! Ser como antes? Como se o episódio de hoje nunca
tivesse acontecido?!
O homem se manteve concentrado em
ultrapassar alguns carros, aumentando ainda mais a velocidade.
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— Nesse caso especifico, sim! Precisamos
fazer um trato com um agiota, se ele aceitar, devolve a proteção da garota. E
ela não se lembrara de nada do que aconteceu hoje... Será como nunca ter
acontecido.
— E se ele não aceitar?
— O agiota é uma criatura extremamente
ardilosa... Eles sempre acabam aceitando!
Chris se manteve calado por alguns segundos.
Já havia se deparado com um agiota, e sabia que nenhum poderia ser tão
caridoso.
— O que ele vai ganhar em troca?
Zacarias continuava a dirigir como um piloto
de racha, ultrapassando poucos automóveis que pareciam se arriscar em meio à
tempestade. Por um minuto pareceu constrangido, e então disse:
— O agiota vai apagar a memória dela, e
dessa forma sua proteção natural voltará!
— O.k! — respondeu Chris prontamente. — Mas
não foi isso o que lhe perguntei.
Zack fez que sim com a cabeça. Omitia uma
parte crucial do trato.
— Caso a humana perca novamente a proteção,
ou de alguma forma torne a se lembrar, o demônio terá poderes para rastreá-la.
Chris pôde sentir o calor desaparecer do
corpo.
— MAS ASSIM, ELE IRÁ MATÁ-LA!
— É... Provavelmente, sim! — respondeu Zack
de forma cínica. — Não te disse que era a melhor das escolhas! Mas em todo caso
é a única que temos!
O garoto desviou o olhar para fora do carro.
Por algum tempo avaliou a situação antes de tornar a falar.
— Acha que realmente vale a pena? Quer
dizer, se ela perder novamente a proteção é morte na certa...
Zack desviou por pouco da dianteira de um
grande caminhão, enquanto tentava ultrapassar um carro, dirigido por um
motorista um tanto lento.
— Se ela perder novamente a proteção,
certamente irá morrer. Seja pelo agiota, ou por qualquer outra criatura!
Chris mordeu os lábios, assimilando o que
acabara de ouvir. Por pior que fosse admitir, sem o agiota, Taylor não
sobreviveria muito tempo.
Zack continuou a dirigir, como se sua
própria vida dependesse disso. Curvas arriscadas, ultrapassagens perigosas
diminuíram pela metade o tempo que levariam para chegar à cidade baixa. A
junção que tornara uma grande ilha na capital de Marcanso.
— Estamos chegando! — informou ao cruzarem
uma ponte, e ele reduzir a velocidade do Porsche. — Dentro do porta-luvas tem
um recipiente de vidro, vamos precisar dele!
Chris, que ainda mantinha a cabeça em
Marcanso, demorou alguns segundos para vasculhar o interior do porta-luvas.
Após alguns segundos, abriu o compartimento apanhando o frasco de vidro.
— O que é isso? — perguntou olhando com
nojo algo parecido com larvas se contorcerem dentro do pote.
— Não vai querer saber! — alertou o amigo
estacionando o carro, em uma avenida ladeada por prédios comerciais.
O garoto observou tudo, parecendo surpreso.
— Vamos mesmo achar um agiota no centro da
cidade? — perguntou esforçado-se para divisar os grandes prédios espelhados que
os cercavam.
— Sim! — respondeu Zack, apanhando o frasco
de vidro.
— Mas as ruas ainda estão cheias de gente!
— argumentou Chris, percebendo que aquilo tudo não fazia sentido.
Um grupo de homens, vestidos de ternos,
encharcados e maletas de couro passaram próximo ao carro, à procura de um táxi.
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— Sem problemas, ninguém irá nos ver! —
esclareceu Zacarias apanhando uma das larvas e engolindo-a.
Chris se contorceu de nojo, sentindo
imediatamente o estômago gemer como se recusasse aceitar aquilo.
— Não vou comer isso! — informou
rapidamente com os olhos fixos nas larvas que se contorciam de forma medonha.
Zack lançou um olhar de censura.
— Se pretende entrar na mansão negra sem
acabar se tornando alimento de uma criatura faminta é bom que coma, e que coma
rápido! — rosnou com pouca paciência deixando o carro, mas antes empurrando o
frasco de vidro com brutalidade nas mãos do garoto.
Chris preferiu não olhar novamente para o
pote. Enfiou a mão direita sentindo dezenas de larvas subirem por seus dedos.
— Não vomite! — disse a si mesmo. — Uma só!
Somente uma, e isso acaba! — concluiu engolindo o mais rápido que podia.
A larva se contorceu dentro de sua garganta
por alguns segundos, fazendo-o acreditar que se sufocaria.
— VAMOS! — gritou Zacarias impaciente,
aguardando Chris embaixo da chuva.
Chris pigarreou alto e deixou o do carro o
mais rápido que pôde. Por um segundo seu corpo pareceu prestes a romper em
chamas. O sangue de dentro de suas veias parecia ter sido substituído por fogo.
— Estranho, não?! — disse Zack, seguindo na
direção de um beco entre dois prédios.
— Sim, parece que vou morrer queimado! —
observou Chris, olhando para o vapor que fumegava por seus poros abertos.
O amigo negou com a cabeça.
— Não estou falando disso! — e desapareceu
em meio à escuridão do beco. — Estou falando dessa situação: milhares de
humanos tão próximos da morte sem nem ao menos suspeitarem disso, “bendita seja a ignorância que os mantém a
salvo.”
— Se você diz! — suspirou Chris pouco
interessado, seguindo seu encalço pela rua sombria.
O lugar era estreito e precário. Por toda
parte se via dezenas de latões de lixo e caixas de papelão encharcadas pela
água da chuva. Só havia espaço para uma pessoa passar por vez. Zack se manteve
à frente.
— O que exatamente é a mansão negra? —
perguntou o garoto, ainda que sua cabeça estivesse longe, em Marcanso,
imaginando como Taylor estava.
O
amigo parou por alguns segundos, as paredes do corredor se estreitavam ainda
mais.
— A mansão negra é onde fica concentrado o
maior número de criaturas com inteligência, igual ou superior a humana. Mas
fique tranquilo, a maioria não notará a nossa presença.
O beco desembocou em um grande campo aberto,
onde uma mansão colonial jazia em ruínas. Chris observou cada detalhe com espanto.
Pelo chão, centenas de restos mortais eram devorados por criaturas que de longe
lembravam cães famintos. Alguns demônios pararam de se alimentar, farejando o
ar, a centímetros de onde os dois atravessavam.
Chris olhou-os com repugnância, cruzando o
saguão de forma cautelosa, até chegar à porta da antiga mansão. Zack, que abria
caminho, empurrou a grande porta, adentrando a propriedade sem maiores
cerimônias. Chris veio pouco atrás, sentindo o fedor de morte e decomposição
invadir suas narinas.
Por um segundo fora como entrar em uma
máquina do tempo, retrocedendo pelo menos duzentos anos. O interior da mansão
era tão antigo quanto sua aparência externa. Paredes longas, revestidas por uma
antiga tapeçaria. Piso de madeira, quadros, lustres de cristais, cortinas, e
móveis antigos. É claro que tudo deteriorado pela força do tempo.
Pouco
à frente, próximo a uma grande escadaria, se encontrava um amontoado de
criaturas, suas silhuetas lembravam homens muito magros e carecas.
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— Sem problemas até aqui? — confirmou Zack,
cruzando o hall de entrada.
— Tudo certo! — respondeu Chris, em seu
encalço.
O amontoado de demônios se voltou
instintivamente na direção da porta, e seus olhos brilharam como pequenos
cristais a procura de intrusos.
Os dois homens por sua vez, seguiram pela
escada onde os degraus velhos e gastos rangeram ao serem pisados. Pares e mais
pares de olhos cintilantes os procuravam em toda parte.
Então, um grito alto e estridente ecoou pela
propriedade, como um alarme, acusando os invasores.
Chris gelou, Zack retrocedeu alguns passos,
e todas as criaturas se agitaram, farejando as escadas com desconfiança.
— Droga! — deixou escapar Zack, fitando uma
sombra emergir no topo da escada, e se curvar pelos degraus como uma grande
aranha.
Chris não tivera tempo de consultar o amigo,
e o caminho que levava ate a porta fora obstruído por três criaturas compridas.
— Quem está aí? — irrompeu uma voz feminina
do topo da escada.
E segundos depois um vulto caminhou com
leveza, até se tornar nítido para os dois invasores. Chris olhou surpreso para o que lhe pareceu
uma mulher completamente humana.
— Muito bem Ordina! — agradeceu a mulher ao demônio que de longe parecia uma
grande aranha armando o bote. — Eu já os vi. E com isso fez sinal, para Ordina
liberar o caminho.
Chris se manteve imóvel, temendo tomar
qualquer atitude. Zack era um imortal experiente, não os colocaria em uma
situação realmente perigosa. Ou colocaria?!
Os olhos da mulher caíram sobre os pés da
escada, então cintilaram.
— Zacarias Salles! — pronunciou com
cordialidade — O que o traz a casa de Filiaggi Batolli?
Zack
rapidamente fez uma profunda reverência.
— Dama negra?! Procuro por um agiota. —
respondeu sem rodeios.
A
mulher deu de ombro.
— Sempre assuntos profissionais, não é
mesmo?! Os anos passam, e você continua o mesmo...
— E você também! — rebateu na mesma hora. —
Continua tão bela, como no dia em que nos conhecemos.
Filiaggi sorriu, exibindo dentes brancos e
perfeitos. Chris pôde avistar melhor as suas formas. Era uma mulher alta, e com
pouca cintura. Seus cabelos alaranjados, perfeitamente presos em um coque.
Destacando ainda mais seu rosto redondo, e olhos verdes como uma esmeralda. Ainda que fosse uma mulher acima do peso, era
extremamente atraente, e de alguma forma fascinante.
— Como sempre galanteador, não é! E esse
quem é? — perguntou se referindo a Chris.
Uma criatura semelhante a um cão farejou os
pés do garoto, que se irritou acertando um chute no animal que grunhiu
contrariado.
— Um secretum?! — suspirou Filiaggi, e seus
olhos faiscaram ainda mais. — Dezoito anos, forte, bonito, corajoso... Eu
diria... Apaixonado!
A dama parecia capaz de enxergar o fundo de
sua alma.
— Sentimentos não são aceitos em nosso
mundo secretum. Especialmente um sentimento tão intenso como a paixão... Mas é
claro... você já sabe disso!
Chris abaixou a cabeça desejando que a
análise tivesse terminado. Não queria ter a vida exposta, ainda mais por alguém
que ele não conhecia.
— Secretum! Secretum! Continuou ela de
forma sutil. — Sua espécie é considerada a nova epidemia de nosso mundo... Mas
você é diferente, é um nobre, esperado pela corte... É realmente um garoto de
muita sorte!
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Zacarias pigarreou alto interrompendo a
mulher, que o encarou sem maiores pretensões. Chris se sentira aliviado com a
interrupção.
Os olhos de Filiaggi se tornaram verdes
novamente.
— Impaciente como sempre! — suspirou
Filiaggi dando as costas à escada. — Livrem-se dessas cortinas de fumaça que os
mantém invisíveis. — Exigiu inclinando a cabeça para o lado, para que os dois a
seguissem. — Ninguém os atacara na minha casa! Não ao menos que eu mande, é
claro!
Chris e Zack seguiram-na rapidamente escada
acima, junto com Filiaggi por longos e sombrios corredores. A água da chuva
escorria por inúmeras rachaduras pelo teto dando a impressão de pequenas
cascatas.
— Ouvi dizer que vai se aposentar! —
acrescentou Zack. E a proteção fumegante que saía por seus poros desapareceu.
Chris pensou em imitá-lo, mas não tinha
ideia de como ele havia feito isso.
— Pelo visto as notícias continuam se espalhando
com a velocidade do vento. Ouviu bem Zacarias, irei mesmo me aposentar! —
confirmou Filiaggi, e desviou de restos mortais largados próximos a uma porta.
— Vou me aposentar. Aproveitar o que restou de minha imortalidade.
Zacarias riu.
— Também pretendo fazer o mesmo assim que
terminar alguns assuntos inacabados.
Por um momento Chris se perguntou qual seria
a real idade do amigo. Zack, não aparentava ter mais do que vinte anos. Mas
ainda assim era um imortal, e como os demais, não costumava aparentar a idade.
Um vulto alto caminhou e cruzou o corredor,
aproximando-se rapidamente de onde estavam.
— Esse é meu novo pupilo! — resmungou
Filiaggi, acenando para o aprendiz continuar em frente.
A jovem mulher conduziu-os até onde pareceu
ser o sótão da casa — “é bom ter cuidado” — preveniu, enquanto observava uma
grande porta surrada — “ele tem andado agitado. Talvez já soubesse de sua
visita”.
— Você não vai entrar? — perguntou Chris,
falando com Filiaggi, pela primeira vez.
— Entrar? Não mesmo! Quero me aposentar com
vida, não arriscaria entrar em seu território com as mãos abanando.
Chris e Zack trocaram olhares preocupados.
— Eu vou sozinho! — afirmou, impedindo o
garoto de argumentar.
— Boa escolha! — afirmou Filiaggi, convicta.
Zack
lançou uma última olhadela para trás, entrando sem pestanejar para dentro da
sala. Chris aguardou pacientemente do lado de fora. Apurando os ouvidos para
ouvir qualquer som que viesse do lado de dentro. Por quase uma hora nada foi
ouvido. Até Zack irromper pela porta apressado.
— Tive certo trabalho! — resmungou o homem,
exibindo hematomas pelo corpo. — Por fim, ele acabou aceitando! Vamos, Chris, é
melhor sairmos rápido.
E então se curvou à frente da dona da casa:
— Filiaggi, como sempre é um prazer...
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