domingo, 6 de maio de 2012


Chris Beomont
— Capítulo dez —
O segundo contato

Zack despachou Chris próximo ao luxuoso condomínio que o garoto morava e partiu sem mais delonga, desaparecendo em meio à tempestade.
   Chris, que horas atrás enfrentara o pânico de ver Taylor morrer em suas mãos, seguiu a pé cruzando as ruas ladeadas por casarões, até chegar próximo ao lago central onde se concentrava as propriedades mais importantes do condomínio.
   O relógio do pulso já marcava dez da noite. Os refletores ainda iluminavam as ruas. E sem dúvida alguma, os moradores da mansão Beomont ainda estavam acordados.
   Chris não poderia entrar no estado em que se encontrava. Seu uniforme estava rasgado, e completamente manchado de sangue. Precisaria esperar até que todos fossem dormir. E antes, confirmar se Taylor estava realmente bem.
   Então, o mais silencioso que pôde, invadiu o jardim contornando a casa, até chegar aos fundos, próximo a grande estufa de vidro, onde sua mãe passava a maior parte do tempo. Vinte metros à frente encontrava-se o grande lago, onde as águas eram agitadas pela forte ventania.    Exatamente na margem oposta, imperava a mansão branca que pertencia à família de Taylor. A porta que dava acesso a varanda de seu quarto estava aberta como um convite ao garoto que não conseguia conter a expectativa. “Será que Taylor havia mesmo se recuperado?” Ainda que pudesse ligar para Gisele e perguntar, Chris precisava ver com os próprios olhos, então, ignorando a chuva que caía incessante, contornou as demais propriedades até chegar à frente da casa da garota.
   A cada metro percorrido seu coração batia ainda mais apertado. Encontraria Taylor em alguns instantes e, repentinamente, um pensamento assombroso lhe veio à mente. E se ela não estivesse realmente recuperada? E se houvesse alguma sequela?
   Ele parou à frente da casa e seus olhos rapidamente avaliaram a distância que precisaria percorrer para saltar dentro do terraço. Chris retrocedeu alguns passos e disparou pelo gramado encharcado, saltando pelo menos três metros no ar, até seus pés alcançaram o chão escorregadio, onde patinou sem jeito para dentro do quarto.
   O local estava relativamente escuro. Um solitário abajur aceso, ao lado da cabeceira da cama de casal onde Taylor se encontrava inerte em um sono profundo. Do outro lado do abajur, sentada a uma cadeira, Gisele encarava o amigo com grande curiosidade.
    — Como foi com o agiota? — perguntou, levantando-se com um pulo.
    — Deu certo, se é o que você quer saber! — respondeu Chris com secura. Os olhos fixos em Taylor.
   Ainda que Gisele tivesse ajudado a salvar a garota, havia mentido para ele. Passando-se por sua amiga, sem revelar suas verdadeiras intenções.
    — Isso é bom! — suspirou Gisele, e seus olhos também caíram sobre a garota. — Ela teve uma noite difícil... Mas tirando algum desconforto e dor de cabeça... Amanhã estará nova em folha!
   Chris encheu-se de alívio, e com cautela se aproximou dos pés da cama, observando Taylor dormir. Parecia serena, mesmo que sua testa estivesse coberta de suor, transmitia paz, e conforto.
    — É só febre! Continuou Gisele temendo o momento em que teria de confrontar o amigo e lhe esclarecer as duvidas que certamente lhe vinham a mente. — Vai persistir por mais algumas horas, mas vai passar!
   Chris assentiu. E então se voltou para ela.
    — Vocês me deram um trabalhão daqueles! — resmungou a garota sem jeito. — Portas destruídas, sangue por todo lado, encantamentos escritos com giz de hizzeto... Tem ideia de como foi complicado apagar aquilo do chão?
    — Não, eu não tenho! — respondeu, e sua voz soou fria como uma geleira. — Aliás não faço ideia de muitas coisas, não é mesmo?! Por exemplo, você ser como eu! — Ele engoliu em seco.   
44>>>
<<< 44
— Quando esperava me contar?
   Gisele, que já contava com esse tipo de atitude, assentiu de forma desconfortável.
    — Certo... Ah... Eu... Hum... Lamento, realmente lamento por ter te enganado! Mas Chris, como seu segundo contato, eu precisava espioná-lo. Saber o que você deixava transparecer para os humanos... Sabe?! Se em algum momento você... Não parecesse realmente humano...
   Chris arregalou os olhos perplexos. Havia mesmo entendido bem? Gisele era seu segundo contato?!
    — Você?! Você é mesmo o meu segundo contato?
   Não parecia verdade, não podia ser... Contudo, Gisele assentiu com gentileza.
    — Sim! Sou seu segundo contato! — respondeu com simplicidade. — E pelo espanto, imagino que esperava alguém diferente, não é mesmo?! Talvez um homem?
    — É... Talvez! — respondeu pouco ausente. — Mas se você pode ser vista pelas demais pessoas, então não é uma...?
    — Imortal?! Não, não! Sou como você: mestiça! — respondeu, e seus olhos reviraram nas orbitas. — Não exatamente como você... Que é “esperado” pela corte!
   “Mas isso já é outro assunto, e antes de começarmos, queria que você ficasse tranquilo sobre... bem, eu mesma dei um jeito de avisar sua mãe. — Informou. — Mãe me desculpe por não avisar antes... É que sai com o pessoal do colégio, e vou dormir na casa de um amigo. — Ao falar a última parte, a voz de Gisele se tornou masculina; uma imitação perfeita da voz de Chris.
    — Como você...? Perguntou abismado.
   Ela riu.
    — Não precisa agradecer! — disse, parecendo levemente lisonjeada. — É apenas uma imitação! — Já ouvi sua voz centenas de vezes... Foi realmente fácil.
    — Ela acreditou? — indagou o garoto, surpreso com a própria pergunta.
   Gisele o imitara perfeitamente, até ele mesmo teria caído se tivesse atendido a ligação.
    — Claro! Aparentemente ficou feliz em pensar que você tem amigos.
   Chris riu.
    — É! Ela realmente se preocupa com isso. Sabe como é, humanos?!
   Gisele assentiu. E a raiva que Chris sentira pela amiga pareceu nunca ter existido.
    — Sei exatamente como é, meus pais também são humanos! Acrescentou. — Bom, imagino que tenha muitas perguntas a fazer... o que quer saber primeiro?!
44>>>
<<< 44

Chris Beomont

— Capítulo nove —

A mansão negra

Por um momento tudo pareceu confuso. Sua cabeça latejava, e seu corpo inteiro, era arrastado com brutalidade.
    — Está tentando se matar?! — rosnou Zacarias, aos poucos se tornando nítido em sua visão invertida.
   Chris tentou erguer a cabeça.
    — Como ela está? — perguntou sentindo-se mais fraco do que jamais estivera na vida.
   Chris se empenhara tanto para reviver a garota, que acabara desmaiando com a investida.
    — Vai ficar bem — resmungou Zack em resposta, largando o garoto de qualquer jeito, próximo a parede e dando as costas ao amigo adiantou-se para acender um cigarro.
   Chris engoliu em seco, a cabeça girava; a boca seca, o corpo inteiro dolorido. Seus olhos então correram de Taylor, caída metros à frente, até Zack, que fumava sem pressa apoiando em uma das estátuas que ladeavam o corredor.
   A sensação que o invadira, ao vislumbrar Taylor completamente recuperada, o invadiu de tal modo, que por mais de um minuto não pôde pronunciar nada, apenas grunhidos sem sentido.
   Zack o encarou com desdém.
    — Sabia que não pode fumar aqui, não é?! — suspirou Chris, tentando conter a euforia:   Taylor estava viva.
   Zack não lhe deu atenção, ao invés disso, resmungou com habitual tom de voz agressivo.
    — Quer dizer que agora se importa com humanos?! — a afirmação dita pelo homem parecia de alguma forma ridícula, ouvida por outra pessoa. — Está tentando se redimir com a sociedade ou coisa do tipo?!
   Chris tentou levantar, mas ao fazer isso, sua cabeça girou trezentos e sessenta graus impedindo-o.
    — Não salvamos humanos, e você sabe disso! — continuou Zack com o sermão.
   Chris havia arriscado tudo para salvar a garota, e somente agora que ela estava bem, a ficha começava a cair. Havia desacatado uma ordem direta e quebrado uma lei valiosa em seu mundo.   Estava encrencado, talvez nunca chegasse a ser o que tanto almejava...
    — Não me importo com humanos! — adiantou-se rapidamente, percebendo um lenço amarrado em torno do punho. Zack havia estancado o seu sangue, salvando sua vida.
    — Não se importa?! — perguntou irritado — Então me diga! O que foi tudo isso?
    — Foi por ela! — sua resposta fora sincera e pouco inteligente. — A Taylor não é qualquer humano... ela... ela é especial.
   Zack franziu a testa intrigado. E por um minuto se perguntara se havia a possibilidade do que ele dizia ser verdade.
    — Especial... ou especial para você?!
   Houve um segundo de indecisão onde ele avaliou bem o risco que corria falando a verdade.
    — Para mim, é claro! — e seus olhos correram do amigo até Taylor, ainda estirada ao chão.      — Não me importo com o resto...
   Chris jamais saberia explicar que tipo de poder Taylor exercia sobre ele. Sempre que se deparava com ela seu coração disparava, suas mãos pareciam gelar, e uma euforia o invadia, fazendo dele o homem mais feliz do mundo.
   Zack balançou a cabeça negativamente, e quando tornou a falar parecia mais debochado.
    — Apaixonado por uma humana! — ridicularizou. — Simplesmente decadente... Nunca se tornará um de nós enquanto se deixar levar por sentimentos.
    — Eu lamento! — suspirou timidamente.
   E uma sensação ruim o dominou. Era vergonha, vergonha de ter sentimentos, vergonha por se importar verdadeiramente com outra pessoa. Chris retirou o lenço do pulso que Zack usara para estancar o ferimento. Então se concentrou, e em poucos segundos o sangue retrocedeu fazendo o corte desaparecer como se nunca tivesse existido.
    — Vai me entregar? — fora impossível conter a pergunta. — Nunca me tornarei um...
37>>>
<<< 37
    — Sorte a sua não ter nada a ser entregue. — atalhou Zack bruscamente. — Não duvide que não o entregasse! Sigo a risca as leis do meu mundo... Do mundo que você almeja entrar! Sobretudo você não quebrou nenhuma lei! Ainda que ter sentimentos humanos seja uma vergonha, não é crime... E uma maldição claramente proibida fora usada contra os dois humanos em questão. E isso lhe dá o direito de tomar partido... se tiver o interesse, é claro!
   Chris sorriu, não acreditando nos próprios ouvidos. Não havia quebrado nenhuma regra. Impedira Taylor de morrer, e ainda assim poderia continuar os testes para, enfim, se juntar a Zack, em seu mundo.
    — Como secretum, você deveria conhecer bem essa maldição! — tornou Zack, consumindo o cigarro lentamente. — Seu nome é: Gildelia Lehmann! Foi bem comum na era moderna. Deu um trabalho e tanto para corte... Centenas de secretuns como você perderam a vida tentando impedir que se alastrasse!
   Agora que Zack tocara no assunto, Chris começara a recordar que já ouvira falar disso.
    — Click! Click! Click!
   Alguém entrava pelo corredor. O garoto, que ainda se encontrava fraco demais para levantar, olhou alarmado para Zack, que por sua vez, não retribui o olhar.
    — Click! Click! Click!
   Uma sombra emergiu pelo corredor, deslizando apressada até onde os dois se encontravam. Taylor continuava inconsciente, não havia tempo para fugir ou explicar, de fato, o que tinha acontecido.
   Chris se desesperou.
    — Eu, eu posso explicar! — adiantou-se, apoiando os braços na parede, para ficar de pé.
   Sua cabeça ainda girava, e o corpo se encontrava fraco. O vulto prosseguiu, até se tornar visível. Era Gisele, sua colega de classe. A garota parecia alarmada, os olhos arregalados.
    — Foram vocês que usaram essa magia?! — perguntou sem rodeios, exibindo os cabelos cacheados, ainda mais arrepiados do que normalmente eram.
    — Claro que não! — respondeu Zacarias com naturalidade, largando a bituca de cigarro no chão, e pisando em cima.
    — Ufa! Vocês teriam um problema e tanto se tivessem feito isso. — disse em tom de quem conhecia o assunto. — Gildelia Lehmann: maldição proibidíssima... Pena de morte, sem julgamento, para quem a usar!
   Zack fez que sim com a cabeça, apoiando-se a parede com displicência. Gisele prosseguiu.
— Um clássico. Pude sentir a energia a quilômetros de distância.
   Chris pôde sentir o estômago dar cambalhotas. Zack estava mesmo conversando com uma das estudantes de Acácia Artt? Como Gisele simplesmente entedia do assunto? Ou pressentiu magia sendo usada de tão longe?
    — Espere um pouco! — suspirou atordoado, tentando esclarecer as coisas — Vocês dois se conhecem?!
   Ambos assentiram, voltando a conversa.
    — Alguém morreu? — perguntou a garota, enquanto os olhos corriam de Zack para Taylor, ainda estirada ao chão — É a Taylor?! Vocês... salvaram uma humana?
   Em sua voz se tornou nítido o desprezo.
    — Foi ele! — acusou Zack na mesma hora, apontando para Chris como um irmão mais velho dedurando o caçula para os pais.
    — Uhm! Não posso dizer que estou surpresa, já tinha reparado na forma em que você a olha.    — esclareceu voltando-se para Chris.
   Ele encarou a amiga que, pela primeira vez, parecia a velha Gisele de sempre.
    — Não seria uma morte natural, não é?! — agora que sabia não ter infringido nenhuma regra havia se apegado a desculpa como se sempre tivesse consciência disso. — Pela lei, eu tenho direito de tomar partido pela vida do humano em questão se, claro, eu quiser fazer isso... e... bom, como ela estuda em Acácia...
38>>>
<<< 38

    — Ah, corta essa Chris! — interpelou Zack parecendo zangado. — Você gosta da humana, admita isso!
   Gisele pareceu decidida em congraçar os dois amigos, e então tornou a falar, ignorando o comentário de Zacarias.
    — O.k, já que vocês decidiram salvar a humana, é melhor fazer o trabalho completo. E temos pouco tempo para isso! Então tratem de arranjar uma nova proteção. Eu cuido da garota e de todo o resto.
   Chris mal tivera tempo de assimilar tudo o que estava acontecendo, e novas informações eram despejadas em sua cara.
    — Nova proteção? Do que você está falando? — perguntou incrédulo.
   Zack, que aparentemente conhecia o assunto, fez sinal para ele se calar.
    — Certo! Se vamos atrás de um agiota precisamos terminar antes que a garota acorde, ou o feitiço não será eficaz! — afirmou cruzando o corredor até Taylor, e cortando uma mecha de seu cabelo.
    — Agiota? — perguntou Chris, sentindo um calafrio perpassar o corpo — Vamos mesmo atrás de um deles?
    — Só se você quiser mesmo que a princesinha sobreviva! Eu particularmente acho que, sem proteção, ela não passa da primeira semana.
   Chris assentiu, e lançou um último olhar para Taylor. Ainda que quisesse estar presente quando ela despertasse era melhor partir, e garantir que algo assim jamais tornasse a acontecer.   Então, ele correu como pôde seguindo Zack.
    — Relaxa, ela vai ficar bem! — acrescentou Gisele, fitando o vulto dos dois amigos desaparecem por uma porta de metal.
   A forte tempestade ainda castigava o grande terreno de Acácia Artt. Chris correu como pôde, sentindo o corpo se recuperar aos poucos da grande perda de sangue. Zack já havia saltado o grande muro que cercava o campus de Acácia Artt, aguardando Chris, dentro de um Porsche azul marinho.
    — Na próxima vez tente se manter consciente enquanto doa o sangue para um humano! — resmungou assim que Chris sentou no banco do passageiro ligeiramente sem fôlego. — Coloque o cinto!
   Um segundo depois o carro partia em alta velocidade cantando pneus em meio o temporal. Chris pôde sentir as costas colarem junto ao banco de couro.
    — Eu preciso que você me esclareça algumas coisas! A Gisele é uma de nós?!
   Zack parecia mais preocupado com a pista escorregadia do que com as dúvidas que Chris pudesse ter. A tempestade tamborilava por cima do carro e pelo painel era difícil distinguir o caminho à frente.
    — Não costumo chamá-la pelo nome! Mas a resposta é sim, ela é uma de nós.
   Chris engoliu em seco, sem ter certeza se gostava ou não da ideia. Zack fizera uma curva larga, onde os pneus derraparam no solo escorregadio.
    — Mais alguma pergunta?
   Perguntas não faltavam. Restava a Chris decidir quais delas eram prioridades, já que conhecia bem o gênio do amigo, e esse não dispunha de muita paciência para explicar nada que não fosse extremamente crucial.
    — Existe mesmo alguma forma da Taylor recuperar a proteção? Sabe?! Ser como antes? Como se o episódio de hoje nunca tivesse acontecido?!
   O homem se manteve concentrado em ultrapassar alguns carros, aumentando ainda mais a velocidade.
39>>>
<<< 39
    — Nesse caso especifico, sim! Precisamos fazer um trato com um agiota, se ele aceitar, devolve a proteção da garota. E ela não se lembrara de nada do que aconteceu hoje... Será como nunca ter acontecido.
    — E se ele não aceitar?
    — O agiota é uma criatura extremamente ardilosa... Eles sempre acabam aceitando!
   Chris se manteve calado por alguns segundos. Já havia se deparado com um agiota, e sabia que nenhum poderia ser tão caridoso.
    — O que ele vai ganhar em troca?
   Zacarias continuava a dirigir como um piloto de racha, ultrapassando poucos automóveis que pareciam se arriscar em meio à tempestade. Por um minuto pareceu constrangido, e então disse:
    — O agiota vai apagar a memória dela, e dessa forma sua proteção natural voltará!
    — O.k! — respondeu Chris prontamente. — Mas não foi isso o que lhe perguntei.
   Zack fez que sim com a cabeça. Omitia uma parte crucial do trato.
    — Caso a humana perca novamente a proteção, ou de alguma forma torne a se lembrar, o demônio terá poderes para rastreá-la.
   Chris pôde sentir o calor desaparecer do corpo.
    — MAS ASSIM, ELE IRÁ MATÁ-LA!
    — É... Provavelmente, sim! — respondeu Zack de forma cínica. — Não te disse que era a melhor das escolhas! Mas em todo caso é a única que temos!
   O garoto desviou o olhar para fora do carro. Por algum tempo avaliou a situação antes de tornar a falar.
    — Acha que realmente vale a pena? Quer dizer, se ela perder novamente a proteção é morte na certa...
   Zack desviou por pouco da dianteira de um grande caminhão, enquanto tentava ultrapassar um carro, dirigido por um motorista um tanto lento.
    — Se ela perder novamente a proteção, certamente irá morrer. Seja pelo agiota, ou por qualquer outra criatura!
   Chris mordeu os lábios, assimilando o que acabara de ouvir. Por pior que fosse admitir, sem o agiota, Taylor não sobreviveria muito tempo.
   Zack continuou a dirigir, como se sua própria vida dependesse disso. Curvas arriscadas, ultrapassagens perigosas diminuíram pela metade o tempo que levariam para chegar à cidade baixa. A junção que tornara uma grande ilha na capital de Marcanso.
    — Estamos chegando! — informou ao cruzarem uma ponte, e ele reduzir a velocidade do Porsche. — Dentro do porta-luvas tem um recipiente de vidro, vamos precisar dele!
   Chris, que ainda mantinha a cabeça em Marcanso, demorou alguns segundos para vasculhar o interior do porta-luvas. Após alguns segundos, abriu o compartimento apanhando o frasco de vidro.
    — O que é isso? — perguntou olhando com nojo algo parecido com larvas se contorcerem dentro do pote.
    — Não vai querer saber! — alertou o amigo estacionando o carro, em uma avenida ladeada por prédios comerciais.
   O garoto observou tudo, parecendo surpreso.
    — Vamos mesmo achar um agiota no centro da cidade? — perguntou esforçado-se para divisar os grandes prédios espelhados que os cercavam.
    — Sim! — respondeu Zack, apanhando o frasco de vidro.
    — Mas as ruas ainda estão cheias de gente! — argumentou Chris, percebendo que aquilo tudo não fazia sentido.
   Um grupo de homens, vestidos de ternos, encharcados e maletas de couro passaram próximo ao carro, à procura de um táxi.
40>>>
<<< 40
    — Sem problemas, ninguém irá nos ver! — esclareceu Zacarias apanhando uma das larvas e engolindo-a.
   Chris se contorceu de nojo, sentindo imediatamente o estômago gemer como se recusasse aceitar aquilo.
    — Não vou comer isso! — informou rapidamente com os olhos fixos nas larvas que se contorciam de forma medonha.
   Zack lançou um olhar de censura.
    — Se pretende entrar na mansão negra sem acabar se tornando alimento de uma criatura faminta é bom que coma, e que coma rápido! — rosnou com pouca paciência deixando o carro, mas antes empurrando o frasco de vidro com brutalidade nas mãos do garoto.
   Chris preferiu não olhar novamente para o pote. Enfiou a mão direita sentindo dezenas de larvas subirem por seus dedos.
    — Não vomite! — disse a si mesmo. — Uma só! Somente uma, e isso acaba! — concluiu engolindo o mais rápido que podia.
   A larva se contorceu dentro de sua garganta por alguns segundos, fazendo-o acreditar que se sufocaria.
    — VAMOS! — gritou Zacarias impaciente, aguardando Chris embaixo da chuva.
   Chris pigarreou alto e deixou o do carro o mais rápido que pôde. Por um segundo seu corpo pareceu prestes a romper em chamas. O sangue de dentro de suas veias parecia ter sido substituído por fogo.
    — Estranho, não?! — disse Zack, seguindo na direção de um beco entre dois prédios.
    — Sim, parece que vou morrer queimado! — observou Chris, olhando para o vapor que fumegava por seus poros abertos.
   O amigo negou com a cabeça.
    — Não estou falando disso! — e desapareceu em meio à escuridão do beco. — Estou falando dessa situação: milhares de humanos tão próximos da morte sem nem ao menos suspeitarem disso, “bendita seja a ignorância que os mantém a salvo.”
    — Se você diz! — suspirou Chris pouco interessado, seguindo seu encalço pela rua sombria.
   O lugar era estreito e precário. Por toda parte se via dezenas de latões de lixo e caixas de papelão encharcadas pela água da chuva. Só havia espaço para uma pessoa passar por vez. Zack se manteve à frente.
    — O que exatamente é a mansão negra? — perguntou o garoto, ainda que sua cabeça estivesse longe, em Marcanso, imaginando como Taylor estava.
   O amigo parou por alguns segundos, as paredes do corredor se estreitavam ainda mais.
    — A mansão negra é onde fica concentrado o maior número de criaturas com inteligência, igual ou superior a humana. Mas fique tranquilo, a maioria não notará a nossa presença.
   O beco desembocou em um grande campo aberto, onde uma mansão colonial jazia em ruínas.    Chris observou cada detalhe com espanto. Pelo chão, centenas de restos mortais eram devorados por criaturas que de longe lembravam cães famintos. Alguns demônios pararam de se alimentar, farejando o ar, a centímetros de onde os dois atravessavam.
   Chris olhou-os com repugnância, cruzando o saguão de forma cautelosa, até chegar à porta da antiga mansão. Zack, que abria caminho, empurrou a grande porta, adentrando a propriedade sem maiores cerimônias. Chris veio pouco atrás, sentindo o fedor de morte e decomposição invadir suas narinas.
   Por um segundo fora como entrar em uma máquina do tempo, retrocedendo pelo menos duzentos anos. O interior da mansão era tão antigo quanto sua aparência externa. Paredes longas, revestidas por uma antiga tapeçaria. Piso de madeira, quadros, lustres de cristais, cortinas, e móveis antigos. É claro que tudo deteriorado pela força do tempo.
Pouco à frente, próximo a uma grande escadaria, se encontrava um amontoado de criaturas, suas silhuetas lembravam homens muito magros e carecas.
41>>>
<<< 41

    — Sem problemas até aqui? — confirmou Zack, cruzando o hall de entrada.
    — Tudo certo! — respondeu Chris, em seu encalço.
   O amontoado de demônios se voltou instintivamente na direção da porta, e seus olhos brilharam como pequenos cristais a procura de intrusos.
   Os dois homens por sua vez, seguiram pela escada onde os degraus velhos e gastos rangeram ao serem pisados. Pares e mais pares de olhos cintilantes os procuravam em toda parte.
   Então, um grito alto e estridente ecoou pela propriedade, como um alarme, acusando os invasores.
   Chris gelou, Zack retrocedeu alguns passos, e todas as criaturas se agitaram, farejando as escadas com desconfiança.
    — Droga! — deixou escapar Zack, fitando uma sombra emergir no topo da escada, e se curvar pelos degraus como uma grande aranha.
   Chris não tivera tempo de consultar o amigo, e o caminho que levava ate a porta fora obstruído por três criaturas compridas.
    — Quem está aí? — irrompeu uma voz feminina do topo da escada.
   E segundos depois um vulto caminhou com leveza, até se tornar nítido para os dois invasores.   Chris olhou surpreso para o que lhe pareceu uma mulher completamente humana.
    — Muito bem Ordina! — agradeceu a mulher ao demônio que de longe parecia uma grande aranha armando o bote. — Eu já os vi. E com isso fez sinal, para Ordina liberar o caminho.
   Chris se manteve imóvel, temendo tomar qualquer atitude. Zack era um imortal experiente, não os colocaria em uma situação realmente perigosa. Ou colocaria?!
   Os olhos da mulher caíram sobre os pés da escada, então cintilaram.
    — Zacarias Salles! — pronunciou com cordialidade — O que o traz a casa de Filiaggi Batolli?
   Zack rapidamente fez uma profunda reverência.
    — Dama negra?! Procuro por um agiota. — respondeu sem rodeios.
A mulher deu de ombro.
    — Sempre assuntos profissionais, não é mesmo?! Os anos passam, e você continua o mesmo...
    — E você também! — rebateu na mesma hora. — Continua tão bela, como no dia em que nos conhecemos.
   Filiaggi sorriu, exibindo dentes brancos e perfeitos. Chris pôde avistar melhor as suas formas. Era uma mulher alta, e com pouca cintura. Seus cabelos alaranjados, perfeitamente presos em um coque. Destacando ainda mais seu rosto redondo, e olhos verdes como uma esmeralda.   Ainda que fosse uma mulher acima do peso, era extremamente atraente, e de alguma forma fascinante.
    — Como sempre galanteador, não é! E esse quem é? — perguntou se referindo a Chris.
   Uma criatura semelhante a um cão farejou os pés do garoto, que se irritou acertando um chute no animal que grunhiu contrariado.
    — Um secretum?! — suspirou Filiaggi, e seus olhos faiscaram ainda mais. — Dezoito anos, forte, bonito, corajoso... Eu diria... Apaixonado!
   A dama parecia capaz de enxergar o fundo de sua alma.
    — Sentimentos não são aceitos em nosso mundo secretum. Especialmente um sentimento tão intenso como a paixão... Mas é claro... você já sabe disso!
   Chris abaixou a cabeça desejando que a análise tivesse terminado. Não queria ter a vida exposta, ainda mais por alguém que ele não conhecia.
    — Secretum! Secretum! Continuou ela de forma sutil. — Sua espécie é considerada a nova epidemia de nosso mundo... Mas você é diferente, é um nobre, esperado pela corte... É realmente um garoto de muita sorte!
42>>>
<<< 42
   Zacarias pigarreou alto interrompendo a mulher, que o encarou sem maiores pretensões. Chris se sentira aliviado com a interrupção.
   Os olhos de Filiaggi se tornaram verdes novamente.
    — Impaciente como sempre! — suspirou Filiaggi dando as costas à escada. — Livrem-se dessas cortinas de fumaça que os mantém invisíveis. — Exigiu inclinando a cabeça para o lado, para que os dois a seguissem. — Ninguém os atacara na minha casa! Não ao menos que eu mande, é claro!
   Chris e Zack seguiram-na rapidamente escada acima, junto com Filiaggi por longos e sombrios corredores. A água da chuva escorria por inúmeras rachaduras pelo teto dando a impressão de pequenas cascatas.
    — Ouvi dizer que vai se aposentar! — acrescentou Zack. E a proteção fumegante que saía por seus poros desapareceu.
   Chris pensou em imitá-lo, mas não tinha ideia de como ele havia feito isso.
    — Pelo visto as notícias continuam se espalhando com a velocidade do vento. Ouviu bem Zacarias, irei mesmo me aposentar! — confirmou Filiaggi, e desviou de restos mortais largados próximos a uma porta. — Vou me aposentar. Aproveitar o que restou de minha imortalidade.
   Zacarias riu.
    — Também pretendo fazer o mesmo assim que terminar alguns assuntos inacabados.
   Por um momento Chris se perguntou qual seria a real idade do amigo. Zack, não aparentava ter mais do que vinte anos. Mas ainda assim era um imortal, e como os demais, não costumava aparentar a idade.
   Um vulto alto caminhou e cruzou o corredor, aproximando-se rapidamente de onde estavam.
    — Esse é meu novo pupilo! — resmungou Filiaggi, acenando para o aprendiz continuar em frente.
   A jovem mulher conduziu-os até onde pareceu ser o sótão da casa — “é bom ter cuidado” — preveniu, enquanto observava uma grande porta surrada — “ele tem andado agitado. Talvez já soubesse de sua visita”.
    — Você não vai entrar? — perguntou Chris, falando com Filiaggi, pela primeira vez.
    — Entrar? Não mesmo! Quero me aposentar com vida, não arriscaria entrar em seu território com as mãos abanando.
   Chris e Zack trocaram olhares preocupados.
    — Eu vou sozinho! — afirmou, impedindo o garoto de argumentar.
    — Boa escolha! — afirmou Filiaggi, convicta.
Zack lançou uma última olhadela para trás, entrando sem pestanejar para dentro da sala. Chris aguardou pacientemente do lado de fora. Apurando os ouvidos para ouvir qualquer som que viesse do lado de dentro. Por quase uma hora nada foi ouvido. Até Zack irromper pela porta apressado.
    — Tive certo trabalho! — resmungou o homem, exibindo hematomas pelo corpo. — Por fim, ele acabou aceitando! Vamos, Chris, é melhor sairmos rápido.
   E então se curvou à frente da dona da casa:
    — Filiaggi, como sempre é um prazer...
43>>>
<<< 43

Chris Beomont

— Capítulo oito —
Taylor Collins

A forte tempestade tornara a inevitável invasão da sala de química mais fácil e segura. Chris que havia se escondido após o término das aulas. Auxiliara Zack em sua entrada clandestina. Ainda que não concordasse plenamente com a ideia.
    — Vamos pegar a especiaria e cair fora, certo?! — confirmou enquanto ele e o amigo percorriam os solitários corredores do prédio B.
    — Claro que sim! — respondeu um Zacarias pouco convincente. — É aqui?! — perguntou segundos depois, parando de chofre à frente do laboratório de química.
   Chris fizera que sim com a cabeça, e por uma fração de segundos imaginou se Zack já não havia invadido o colégio anteriormente.
    — Abra! — e a porta girou para o lado dando passagem.
   Os olhos do homem se estreitaram, e antes que o garoto pudesse adentrar a sala, Zack tornou a falar.
    — Eu entro sozinho, vigie o corredor!
   Chris se voltou para ele contrariado, seus olhos exibiam sua total desconfiança. Sabia o quanto Zack desprezava regras e leis humanas. E com esse pensamento, temeu que o amigo furtasse do laboratório o suficiente para chamar atenção. Após alguns segundos se deu por vencido e liberou a passagem para a sala.
    — Seja rápido! — resmungou, enquanto Zack desaparecia para dentro da porta.
   Chris havia perdido muitos anos de sua vida internado no hospital psiquiátrico Cezar Silld, e ainda que pudesse parecer besteira para o amigo, era impossível não temer que as tarefas que precisava cumprir, acabassem causando algum problema para ele ou sua família. Sobretudo, Zack era seu primeiro contato com a corte. E não seria sábio contrariá-lo.
   Após alguns minutos, Zacarias emergiu de volta para o corredor.
    — Vamos!
   Chris assentiu, agradecendo a rapidez com que ele tratara a invasão, e com grande alívio seguiu Zack, examinando a mochila que ele carregava nas costas. Sem sombra de dúvida, parecia repleta de objetos.
    — Você tomou cuidado para não notarem o roubo, não é?! — fora impossível conter a pergunta.
    — Claro! — respondeu Zack sem pestanejar. — Estou acostumado com esse tipo de trabalho!
O garoto assentira descrente, torcendo para que fosse verdade.
    — Espero que sim! — resmungou mais para si mesmo do que para o companheiro...
   Então, algo o impediu de seguir em frente, havia uma estranha energia pairando sobre o ar. Uma energia baixa, e sombria...
    — O quê?! Perguntou Zack que andava à frente, virando-se para encará-lo.
    — Você sentiu? Sentiu isso?
    — Não senti nada! Agora vamos, teremos uma noite cheia. Negligenciou Zack, apanhando Chris pelo braço.
   A energia se tornou ainda mais poderosa.
    — Espere! — respondeu rapidamente, desvencilhado-se de suas mãos. — Tem algo errado, algo muito errado.
   Zack contraiu a face, visivelmente irritado. E daí que tivesse algo de errado com o lugar. O colégio não era de sua conta e depois de roubar tudo o que precisava, já não via motivos para se manter ali.
    — Sempre tem alguma coisa errada, Chris! Vamos embora. Independendo do que seja, não é da nossa conta.
   Chris não cedera. Ao invés disso, deu as costas para o companheiro, refazendo o caminho que havia feito. Zack que a essa altura sentia-se terrivelmente contrariado, o seguiu corredor adentro.
32 >>>
<<< 32
    — O que você está vendo? — perguntou. E o desinteresse se tornou nítido em sua voz.
    — Não estou propriamente vendo, e sim sentindo. — respondeu ausente, adentrando o longo corredor, até chegar à frente de uma grande porta dupla.
    — Parece vir daqui! — suspirou intrigado, e seus olhos correram por um delicado letreiro de bronze: Escritório de Cid Artt.
   Zack se manteve relutante.
    — Vamos embora! — rosnou impaciente.
    — Não! — contestou Chris examinando a porta. — Tem alguma coisa realmente estranha...
   Ainda que não pudesse descrever, em seu íntimo, sabia que se ignorasse o que sentia, poderia se arrepender amargamente por isso.
   Zack bufou irritado, e retirou do bolso um pequeno giz preto.
    — Pegue! — avisou atirando o material pelo ar.
   Chris o apanhou com grande destreza, e seus olhos correram pelo giz, que conhecia bem.
    — É só moer, não é?!
   O homem confirmou com a cabeça, ainda mais impaciente do que antes.
    — Apenas jogue as cinzas para o ar.
   Chris assentiu, esmagando o giz com a palma da mão.
    — Vamos! — reclamou Zack. — Acabe logo com isso!
   O garoto mirou a porta atirando as cinzas em sua direção. Por uma fração de segundos a poeira negra pairou pelo ar, como se atingisse um recipiente de água, expandindo-se lentamente pela superfície.
   Zack que não contava com esse tipo de reação, arregalou os olhos.
    — Mas que droga é essa?
   A poeira negra ganhou ainda mais forma e, com a semelhança de um cometa, atingiu a porta dupla arrancando-a pelas dobradiças.
   Os dois homens pularam para trás. E teias negras surgiram por dentro do escritório de Cid Artt, o atual diretor.
    — Magia negra?! — certificou-se o garoto voltando-se para um Zacarias boquiaberto.
    — Não! — respondeu prontamente, analisando os vestígios negros que pairavam pelo ar.
As teias cintilavam, flutuando fantasmagoricamente.
    — É algo muito pior do que isso...
   O garoto engoliu em seco, impossibilitado de olhar para qualquer outro lado que não fosse o interior do escritório.
    — Em Acácia Artt?! Não entendo! O que atrairia algo assim por aqui?
    — Nem eu! E por sorte, isso não é da nossa conta, vamos?! — insistiu Zack, ignorando a sala que a cada segundo se tornava mais escura.
   Chris congelou.
    — Um minuto... Estou vendo alguma coisa! — imagens pouco nítidas formaram-se em sua mente.
   Zacarias bufou irritado. Sabia que uma maldição poderosa havia sido usada contra alguém, provavelmente o dono do escritório à frente. E o mais sensato a se fazer era evitar quem conjurara esse tipo de poder.
    — Quantos são? — perguntou segundos depois, percebendo que não adiantaria arrastar Chris para fora do colégio.
    — Um... Talvez dois... Ainda não tenho certeza...
   Zack engoliu em seco.
    — Existe algum tipo de risco? Algum risco para nós?
   Chris se esforçou o máximo para que as visões que flutuavam por sua mente se tornassem mais nítidas. E quando tornou a falar, sua resposta fora categórica.
 33 >>>
<<< 33
     — Sim... Existe um grande risco! Posso sentir uma fome devastadora... Algum tipo de criatura recém nascida...
    — Ou recém criada! — atalhou Zack. — O.k! Então vamos embora, antes que isso nos traga problemas.
   Chris ignorou sua ordem.
    — Está se aproximando de algum humano... vai atacá-lo...
   A mão firme de Zack se fechou em torno de seu braço, e então ele disse.
    — Não queria estar na pele dele, vamos?!
Chris pôde sentir o estômago congelar.
    — Taylor! — exclamou com urgência na voz. — Vai atacar a Taylor...
Zack, que já seguiu em frente, se voltou para trás com brutalidade.
    — Antes ela do que você...
    — Não! — gritou em protesto. — Você não está entendendo, ele vai atacar a Taylor, vai matá-la!
    — E quem se importa? Não somos super-heróis Chris, não interferimos no ciclo.
   Chris desacatou sua ordem. Sentia como se um trem desgovernado o tivesse atropelado. Não deixaria... Não permitiria que nada, nem ninguém fizessem mal a garota.
   Zack previu sua atitude, apanhando rapidamente seu braço.
    — Não pense em quebrar o ciclo! Se ela puder defrontá-lo, é porque chegou sua hora!
    — NÃO! — gritou, atirando o companheiro para o lado, e disparou pelo corredor sem se preocupar em achar uma desculpa para salvar a vida da garota... Repentinamente, ingressar no mundo que tanto sonhava, deixara de ser importante... Taylor era mais. Mais do que ele pudesse imaginar!
   Seu coração pulsava acelerado, e o ar parecia ter deixado de existir... Precisava ser rápido... O corredor parecia interminável... Então Chris alcançou as escadarias. Descendo por elas como uma bala. Terceiro andar — Segundo andar — primeiro andar — Térreo... E enfim, o último lance de escadas que levava até o túnel subterrâneo. Chris saltou os últimos quinze degraus, irrompendo pela porta de metal que dava acesso ao túnel...
   O coração apertado, como se uma mão invisível se fechasse sobre ele.
   Taylor gritava por ajuda. O garoto entrou pelo túnel correndo em disparada. A poucos metros de distância se encontrava a garota, tentando se desvencilhar das mordidas do diretor.
    — Taylor!
   Ela já parecia sem forças para continuar. Taylor estava caída no chão, coberta de sangue enquanto o homem de cabelos grisalhos a prendia, mordendo seu braço de uma forma voraz.
Chris parou por um segundo, analisando a cena. Precisava tirá-lo de cima dela, sem que se machucasse ainda mais.
   Zack chegou pouco depois, derrapando atrás do garoto.
    — Odeio correr sem motivos! — rosnou de uma forma agressiva, enquanto tentava recuperar o ar.
   As luzes de emergência oscilaram. Houve uma pancada, e Chris fora derrubado por uma força descomunal. Mandíbulas ferozes se fecharam próximo ao seu pescoço, e ele precisou de toda a força para evitar a mordida... O fedor de sangue, a apenas centímetros de seu nariz.
    — Não deixe que ele o morda! — soou a voz de Zack vinda de algum lugar.
   As luzes de emergência oscilavam como nunca, e Chris já não conseguia se adaptar a claridade.
   Suas mãos se fecharam sobre o maxilar do homem que horas antes era um senhor calmo e educado. Cid havia se tornado um mostro; uma espécie de demônio, ou amaldiçoado... O que era exatamente? Chris não sabia dizer... Apenas que não poderia ser mordido por ele. Precisava agir rápido.
34 >>>
<<< 34
    Suas mãos firmes sobre o maxilar do diretor se contraíram, e segundos depois, Chris quebrara seu pescoço, até sentir os ossos se tornarem migalhas.
    — Isso não vai adiantar! — informou Zack pouco atrás de onde estavam.
   Chris o encarou com a imagem invertida, e ainda lutando com Cid, vislumbrou Zack ficar de joelhos, e traçar o chão com outro giz, de cor negra.
   O garoto contraiu os joelhos, e com o auxílio dos braços atirou o velho para trás. Cid rodopiou pelo ar, caindo de pé, como a habilidade de um gato.
    — Oh droga!
   Não houve tempo para mais nada, o diretor agora investia contra o garoto, ainda mais rápido do que da primeira vez...
   Chris, que olhava preocupado para Taylor, mal teve tempo de se proteger, sentindo dentes afiados perfurarem os músculos do braço esquerdo. Ele urrou de dor.
    — Eu disse para não deixá-lo te morder! — gritou Zack parecendo zangado.
   Era como se tudo ao redor tivesse sido apagado, e um novo teste posto em andamento.
    — Ainda não sabemos que tipo de coisa você esta enfrentando... Pode ser que seja venenoso!
As mandíbulas continuaram a se fechar rapidamente à procura de sua carne.
    — Você precisa destruir completamente o corpo! — gritou Zack, traçando o chão com uma mistura de símbolos e palavras.
    — Certo! — respondeu o outro afobado, segurando a cabeça do diretor com a mão esquerda, e com a direita fechada em punho.
   Ele, então, juntou toda a força, golpeando em cheio a criatura...
   O crânio de Cid se partira em várias partes diferentes. Espirrando sangue e dentes para todos os lados!
   O corpo logo ficou molenga e despencou para trás. Chris se levantou imediatamente.
    — Taylor! — chamou pela garota, correndo em sua direção. Taylor piscou os olhos repentinamente, mas já não parecia consciente do que estava acontecendo. Sua cabeça se inclinou para o lado.
    — Pode me ouvir? — perguntou com urgência, e seus olhos correram pelo que restara dos braços da garota. Cid fizera um estrago e tanto.
    — ZACK! — gritou por ajuda. — O QUE EU FAÇO?
   A resposta fora simples e direta.
    — Primeiro acabe de destruir o corpo!
    — Quê?! — perguntou Chris voltando-se para o amigo.
   Dedos finos e frios se fecharem em volta de seu pescoço. Cid sufocou Chris por poucos segundos, quase quebrando seu pescoço.
    — Já identifiquei o que está acontecendo. — comentou Zacarias, como se analisasse o final de um filme. — É a antiga maldição Gildelia Lehmann!
   Chris partiu o braço do diretor em três partes inutilizando-o.
    — Gild o quê?!
    — Gildelia Lehmann! — repetiu. — Ah esqueça isso! Traga-o para o círculo!
   Zack se levantou e retrocedeu alguns passos, exibindo o grande círculo que traçara em poucos minutos.
   Chris partiu o outro braço de Cid e o arrastou como pôde para dentro do círculo. E ainda que sua cabeça e braços estivessem inutilizados, havia em algum lugar uma estranha energia que ainda resistia.
   Gritos agudos encheram o corredor, revelando dezenas de sombras negras.
    — Mas que droga! — suspirou Chris alarmado, prosseguindo até o círculo como podia.
   As luzes de emergência falharam, apagando completamente.
    — Continue em frente! — ordenou a voz de Zack.
35>>>
<<< 35
    O garoto se manteve firme, caminhando lentamente até notar o corpo de Cid se debater. Ao que lhe pareceu, sentia dor pela primeira vez. Os dois corpos haviam cruzado o círculo. Houve um lampejo, e Chris saltou para trás em tempo do cadáver queimar em uma combustão espontânea.
   Não houve tempo para ele concluir o que acabara de acontecer, e novamente a voz de Zack, soou.
    — Se quer salvar a vida da garota é melhor agir rápido!
   As luzes de emergência voltaram a funcionar. Por um instante o garoto pôde enxergar as sombras negras como carvão se amontoarem ao redor de Taylor.
   Chris adiantou-se para ajudá-la. Os braços da garota estavam completamente destruídos, mastigados em várias partes. Taylor já não demonstrava sinais vitais, apenas encarava o teto com os grandes olhos azuis, que pouco a pouco se tornavam tão brancos quanto as paredes.
    — Droga Zack! — lamentou Chris, sentindo os olhos arderem — Ela está muito ferida! O que eu faço?
   O amigo emergiu ao seu lado, e os olhos caíram sobre a garota. Por alguns segundos Zack contraiu o rosto. Não era excepcionalmente uma imagem bonita.
    — Uhm! É realmente terrível! — Ficou segundos em silêncio enquanto analisava as opções.
   Chris olhava Taylor estirada ao chão, via também um Zack pensativo. Seu peito subia e descia, já não podia conter o desespero.
    — Realmente muito difícil... Não sei... Talvez, talvez ajude! Isso! Use seu sangue! — concluiu apanhando uma pequena lâmina das vestes, e atirando-a ao garoto.
    — Seja rápido, use seu sangue para revivê-la!
   Houve alguns segundos de indecisão, onde Chris avaliara as chances disso dar certo.
    — Os seus poderes curativos podem ajudá-la! Duvido que alguém já tenha experimentado antes, mas de qualquer forma não temos muitas escolhas, não é?!
   Chris assentiu, apanhando a lâmina. Mesmo que mal tivesse contato com Taylor, vê-la pela última semana, se tornara uma das melhores coisas que acontecera em sua vida.
   A lâmina estremeceu quando ele perfurou o próprio pulso. E então se inclinou para frente, apanhando o braço da garota, e com as mãos trêmulas derramou do próprio sangue, diretamente na corrente sanguínea dela.
    — Por favor, sobreviva! — murmurou. Mal podendo conter o pânico na voz. — Você não pode morrer assim! Não vou permitir.
   O corpo de Taylor não demonstrou nenhuma reação. A cada segundo, parecia ainda mais próxima a morte.
   Zack apanhou o ombro do amigo.
    — Você tentou, cara!
   Ele negou.
    — Não vou desistir... Ela vai ficar bem, eu tenho certeza!
36 >>>
<<< 36