Chris Beomont
— Capítulo três —
O primeiro contato
O sereno caía sobre o luxuoso condomínio. E, um a um, os irrigadores eram acionados, borrifando seus jatos d’água sobre grandiosos jardins. Já passava das duas da manhã. A festa de aniversário de Taylor Collins já havia encerrado, e a mansão branca se tornara tão silenciosa quanto as demais que ladeavam o grande lago central. Todos dormiam, e o silêncio imperava como a escuridão da noite... Contudo, havia alguém acordado, um jovem de cabelos negros, e olhos expressivos, rodeava a varanda de seu quarto...
Chris Beomont, já estava impaciente. Estalava os dedos, pescoço, coçava a cabeça, e nada parecia diminuir sua angústia. As pessoas que ele tanto aguardava, já estavam atrasadas; anos de atraso. Ainda que nunca fora marcado um compromisso formal.
O garoto vestia uma regata preta, e calça jeans. Seus braços eram definidos e fortes. E sua aparência física, tão atlética quando alguém poderia ser... A única estranheza nisso tudo era que Chris nunca em toda vida, praticara nenhum esporte, nenhum tipo de luta, ou dança...
Ele, então, continuou rodeando a varanda sem sair do lugar. Sentia-se ansioso. Sabia que eles viriam! Uma hora teriam de aparecer... Não poderiam abandoná-lo... O primeiro encontro aconteceria a qualquer instante... Já não havia mais tempo a perder...
Contudo, as horas foram passando e o relógio do pulso já apontava quatro da manhã!
Então aconteceu. Passos pesados irromperam pouco acima de sua cabeça. Estavam no telhado, duas ou mais pessoas...! Ou seria apenas uma? Chris já não podia se conter de excitação. Aguardara por esse momento há anos, a vida inteira para ser mais exato.
Silêncio. Então, uma sombra saltou para dentro da varanda, aterrissando com a perfeição de uma águia.
— Christian? — perguntou um homem sem rodeios, e sua energia pareceu tomar toda a varanda. Seu corpo era coberto por vestes negras, e sua voz soou grave.
O garoto assentiu. Havia milhares de coisas a serem ditas, tantas, que as palavras simplesmente entalaram em sua garganta, tamanha era sua expectativa. O coração batucando como tambores de guerra.
— Sou Zacarias Salles! — apresentou-se o estranho, fazendo uma pequena reverência. — Seu primeiro contato com a corte, e sinto informar que estamos atrasados!
Uma hora e meia havia se passado, o sol estava prestes a emergir pelo horizonte. E o mesmo homem, que antes visitava o quarto de Chris. Ouvia atento, uma sequência de gritos pavorosos. “Um som terrível para qualquer um que pudesse ouvir”, mas não para ele. Zacarias Salles, o nome que se apresentara ao garoto, acendeu um cigarro despreocupado. Parecia estranhamente animado, deleitando-se com os gritos que vinham de um mausoléu, a poucos metros de distância.
À primeira vista, o lugar onde ele estava, poderia parecer encantador. Colinas verdes, árvores bem cuidadas, e estátuas de todo tipo. Mas na realidade, Zack se encontrava em um cemitério, o cemitério principal da cidade de Marcanso. O mesmo que Rui Beomont fora enterrado um dia antes.
As súplicas por ajuda continuaram, não eram em português, tão pouco em alguma língua conhecida. Mas Zack a entendia bem. O desespero alheio soava como música aos seus ouvidos.
— Manda ver garoto!
O homem prosseguiu despreocupado, até que pouco a pouco, seu cigarro fora consumido, restando apenas a bituca, que ele jogara displicentemente, sobre a grama lamacenta.
Os gritos enfim cessaram. E a porta da capela se escancarou com um baque ensurdecedor. Chris — agora coberto de sangue — irrompeu do interior da capela, atravessando o campo lentamente, até se juntar ao companheiro.
Zack colocou-se de pé.
8 >>> <<< 8
— Conseguiu?! Apanhou ao menos um?! — perguntou animado, lançando um olhar psicótico, as mãos do garoto, que se encontravam fechadas.
— Só um! — rosnou Chris em resposta. A cara azeda, de quem não gostara do serviço que tivera que fazer.
Um segundo depois, algo pequeno fora lançado ao ar. Zack amparou rapidamente, uma espécie de globo pegajoso.
— Bom trabalho Chris! Suspirou admirado, e o globo que segurava se revelara em um olho, ainda repleto de sangue. — Varoon! Varoon! Suspirou mais para si mesmo, do que ao garoto. — Tem ideia do quanto essa coisinha pode nos ser útil?!
Chris deu de ombros. Encontrava-se decididamente irritado.
— Vou embora — resmungou, evitando olhar para ele.
Os anos de espera, agora pareciam uma grande perca de tempo.
Zack examinou o olho, seguro nas mãos, fitando de relance o garoto, que já o deixava para trás.
— Parabéns Christian! — congratulou antes que fosse tarde demais. — Concluiu sua primeira tarefa com muita eficiência. Agora descanse, amanhã teremos um dia cheio!
9 >>> <<< 9
Nenhum comentário:
Postar um comentário