quinta-feira, 12 de abril de 2012

Meses antes
— Capítulo um —

O velório
O silêncio era predominante. Não havia choro ou lamentação, e sim um profundo silêncio no velório de Rui Beomont. Nenhum dos empresários presentes se mostrava surpreso. E ainda que sua morte fosse repentina, ninguém estava realmente curioso em saber o laudo médico: que apontava uma morte no mínimo intrigante.
    — Eu só vim para ter certeza! — resmungou um homem calvo, para sua esposa de ar entediado. — Queria ver com meus próprios olhos...
   A mulher assentiu.
    — Eu só acredito mesmo, quando esse aí estiver a sete palmos! —suspirou em resposta, pouco preocupada com as pessoas ao redor. — Corta-me o coração apenas, saber que ele tinha uma filha de poucos meses... Pobrezinha, nunca conhecerá o pai!
   Um empresário próximo ao casal empinou o nariz, e fitando o caixão disse.
    — Não se aflija com isso Vera... Essa realmente é uma garota de sorte! Eu diria muita sorte!
   Todos assentiram prontamente, e em respeito à família se calaram, examinando o grande caixão negro, envolvido por impecáveis flores brancas.
   A viúva era de todos, a pessoa menos provável para discutir o assunto. Fitava o caixão que estava na sua frente, ainda que seus pensamentos estivessem longe, em outro lugar.
   Pouco a pouco, os presentes foram se despedindo da família, rumando ao cemitério, onde enfim o corpo seria sepultado...
    — Meus pêsames, Selma! — Suspiravam falsamente, enquanto partiam em marcha.
    — É realmente uma grande perda! Grande perda!
   Aos poucos a luxuosa sala fora se tornando vazia, até não restar mais ninguém, a não ser a viúva e sua governanta.
    — Posso trazê-lo? — perguntou a empregada de forma suspeita, adiantando-se às portas duplas que davam acesso ao jardim, e fechando-as rapidamente.
   A viúva assentiu, voltando a atenção ao marido. Era o fim, nunca mais o veria, e por mais que isso pudesse doer; não demonstrava nenhum sentimento, nenhuma fraqueza...
   A governanta retornou em seguida, o rosto redondo corado pelo esforço. Os cabelos brancos, desgrenhados. Dessa vez, acompanhada por um jovem de seus dezoito anos de idade. E esse ainda que bonito, se mostrava tenso: a face contraída exibindo grande aflição.
    — Chris! — chamou a viúva com gentileza, os olhos ainda fixos no cadáver. — Sabe que não precisa vê-lo se não quiser...!
   Chris não respondeu imediatamente, manteve-se imóvel, apertando assustado a dúzia de tulipas que levava a mão.
    — Tudo bem! — respondeu ausente. — Eu, gostaria de ficar... A sós!
Selma o encarou visivelmente surpresa. A governanta por sua vez, olhara para a chefe duvidosa, aguardando sua resposta.
    — Muito bem! — avise-nos quando terminar... — Vamos Olívia. — Respondeu Selma com elegância deslizando para fora da sala.
   A empregada a seguiu-a; e já estava quase a porta, quando soltou um gritinho assustado.
    —TULIPAS?! — exasperou-se tomando-as da mão do garoto. — O doutor Beomont era alérgico à tulipas! Sempre as odiou!
   E com isso deixou o aposento resmungando afetada.
    — Até nessas horas ele consegue aborrecer o pai... Francamente! — disse Olívia.
   A porta fechou com um estalo, fazendo Chris se sobressaltar. As velas acesas próximo ao caixão se agitaram, aumentando suas chamas fantasmagoricamente, e lá estava ele. Pela última vez, Chris Beomont encarava seu pai...
   O garoto fitou o cadáver apreensivo. Parecia vivo, apenas descansado dentro de um grande caixão negro. Então, se aproximou hesitante. Não estava triste, tão pouco havia algo que quisesse dizer, ou lamentar. Desejava apenas que tudo terminasse o mais rápido possível, e com esse desejo, levou a mão direita ao peito respirando profundamente, enquanto tateava o corpo, a procura de uma medalha de cobre.



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   Não precisaria mais dela, já não era mais necessária! Então, a retirou com cuidado, imaginando como a colocaria ao corpo do pai, sem ter de encostar-se a ele. E nesse mesmo instante, urrou assustado, se esquivando do caixão como se visse um fantasma.
   Os olhos do homem o encaravam, estalados! A medalha caíra sobre o corpo. O coração acelerado parecia prestes a saltar pela boca.
   Rui não parecia consciente, menos ainda em posse de suas funções motoras. Mas seus olhos estavam claramente abertos, encarando-o!
   Chris, então repassou mentalmente todos os últimos acontecimentos, e chegou à conclusão que não poderia ser verdade, Rui não podia estar vivo... Não tinha esse direito.
   Os olhos piscaram rapidamente, aumentando ainda mais seu pavor. Lentamente foram se virando, até caírem sobre o teto, como se examinasse a sala...
   Rui estava vivo. De alguma forma, havia sobrevivido a tudo, e Chris podia ver claramente seu pedido de socorro, expresso em seus olhos.
   O garoto hesitou por alguns segundos, por fim, se aproximou. A mão direita na direção do caixão.
    — Pai?!
   Seus olhos caíram sobre o homem que não podia responder. Então, se aproximou ainda mais do caixão.
    —Mesmo que tente! — murmurou com um brilho insano nos olhos. — Ninguém poderá ouvi-lo.
   Um segundo depois, a pesada tampa de madeira bateu com um estalo. E os olhos arregalados, desapareceram para sempre.
    — Descanse em paz... Se puder!



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