Chris
Beomont
— Capítulo dez —
O segundo contato
Zack
despachou Chris próximo ao luxuoso condomínio que o garoto morava e partiu sem
mais delonga, desaparecendo em meio à tempestade.
Chris, que horas atrás enfrentara o pânico de
ver Taylor morrer em suas mãos, seguiu a pé cruzando as ruas ladeadas por
casarões, até chegar próximo ao lago central onde se concentrava as
propriedades mais importantes do condomínio.
O relógio do pulso já marcava dez da noite.
Os refletores ainda iluminavam as ruas. E sem dúvida alguma, os moradores da
mansão Beomont ainda estavam acordados.
Chris não poderia entrar no estado em que se
encontrava. Seu uniforme estava rasgado, e completamente manchado de sangue.
Precisaria esperar até que todos fossem dormir. E antes, confirmar se Taylor
estava realmente bem.
Então, o mais silencioso que pôde, invadiu o
jardim contornando a casa, até chegar aos fundos, próximo a grande estufa de
vidro, onde sua mãe passava a maior parte do tempo. Vinte metros à frente
encontrava-se o grande lago, onde as águas eram agitadas pela forte ventania. Exatamente na margem oposta, imperava a
mansão branca que pertencia à família de Taylor. A porta que dava acesso a
varanda de seu quarto estava aberta como um convite ao garoto que não conseguia
conter a expectativa. “Será que Taylor havia mesmo se recuperado?” Ainda que
pudesse ligar para Gisele e perguntar, Chris precisava ver com os próprios
olhos, então, ignorando a chuva que caía incessante, contornou as demais propriedades
até chegar à frente da casa da garota.
A cada metro percorrido seu coração batia
ainda mais apertado. Encontraria Taylor em alguns instantes e, repentinamente,
um pensamento assombroso lhe veio à mente. E se ela não estivesse realmente
recuperada? E se houvesse alguma sequela?
Ele parou à frente da casa e seus olhos
rapidamente avaliaram a distância que precisaria percorrer para saltar dentro
do terraço. Chris retrocedeu alguns passos e disparou pelo gramado encharcado,
saltando pelo menos três metros no ar, até seus pés alcançaram o chão
escorregadio, onde patinou sem jeito para dentro do quarto.
O local estava relativamente escuro. Um
solitário abajur aceso, ao lado da cabeceira da cama de casal onde Taylor se
encontrava inerte em um sono profundo. Do outro lado do abajur, sentada a uma
cadeira, Gisele encarava o amigo com grande curiosidade.
— Como foi com o agiota? — perguntou,
levantando-se com um pulo.
— Deu certo, se é o que você quer saber! —
respondeu Chris com secura. Os olhos fixos em Taylor.
Ainda que Gisele tivesse ajudado a salvar a
garota, havia mentido para ele. Passando-se por sua amiga, sem revelar suas
verdadeiras intenções.
— Isso é bom! — suspirou Gisele, e seus
olhos também caíram sobre a garota. — Ela teve uma noite difícil... Mas tirando
algum desconforto e dor de cabeça... Amanhã estará nova em folha!
Chris encheu-se de alívio, e com cautela se
aproximou dos pés da cama, observando Taylor dormir. Parecia serena, mesmo que
sua testa estivesse coberta de suor, transmitia paz, e conforto.
— É só febre! Continuou Gisele temendo o
momento em que teria de confrontar o amigo e lhe esclarecer as duvidas que
certamente lhe vinham a mente. — Vai persistir por mais algumas horas, mas vai
passar!
Chris assentiu. E então se voltou para ela.
— Vocês me deram um trabalhão daqueles! —
resmungou a garota sem jeito. — Portas destruídas, sangue por todo lado,
encantamentos escritos com giz de hizzeto...
Tem ideia de como foi complicado apagar aquilo do chão?
—
Não, eu não tenho! — respondeu, e sua voz soou fria como uma geleira. — Aliás
não faço ideia de muitas coisas, não é mesmo?! Por exemplo, você ser como eu! —
Ele engoliu em seco.
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—
Quando esperava me contar?
Gisele, que já contava com esse tipo de
atitude, assentiu de forma desconfortável.
— Certo... Ah... Eu... Hum... Lamento,
realmente lamento por ter te enganado! Mas Chris, como seu segundo contato, eu precisava espioná-lo. Saber o que você deixava
transparecer para os humanos... Sabe?! Se em algum momento você... Não
parecesse realmente humano...
Chris arregalou os olhos perplexos. Havia
mesmo entendido bem? Gisele era seu segundo contato?!
— Você?! Você é mesmo o meu segundo
contato?
Não parecia verdade, não podia ser...
Contudo, Gisele assentiu com gentileza.
— Sim! Sou seu segundo contato! — respondeu
com simplicidade. — E pelo espanto, imagino que esperava alguém diferente, não
é mesmo?! Talvez um homem?
— É... Talvez! — respondeu pouco ausente. —
Mas se você pode ser vista pelas demais pessoas, então não é uma...?
— Imortal?! Não, não! Sou como você:
mestiça! — respondeu, e seus olhos reviraram nas orbitas. — Não exatamente como
você... Que é “esperado” pela corte!
“Mas isso já é outro assunto, e antes de
começarmos, queria que você ficasse tranquilo sobre... bem, eu mesma dei um
jeito de avisar sua mãe. — Informou. — Mãe me desculpe por não avisar antes... É que sai com o pessoal do colégio, e vou
dormir na casa de um amigo. — Ao falar a última parte, a voz de Gisele se
tornou masculina; uma imitação perfeita da voz de Chris.
— Como você...? Perguntou abismado.
Ela riu.
— Não precisa agradecer! — disse, parecendo
levemente lisonjeada. — É apenas uma imitação! — Já ouvi sua voz centenas de
vezes... Foi realmente fácil.
— Ela acreditou? — indagou o garoto,
surpreso com a própria pergunta.
Gisele o imitara perfeitamente, até ele
mesmo teria caído se tivesse atendido a ligação.
— Claro! Aparentemente ficou feliz em
pensar que você tem amigos.
Chris riu.
— É! Ela realmente se preocupa com isso.
Sabe como é, humanos?!
Gisele assentiu. E a raiva que Chris sentira
pela amiga pareceu nunca ter existido.
— Sei exatamente como é, meus pais também
são humanos! Acrescentou. — Bom, imagino que tenha muitas perguntas a fazer...
o que quer saber primeiro?!
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