domingo, 6 de maio de 2012


Chris Beomont

— Capítulo nove —

A mansão negra

Por um momento tudo pareceu confuso. Sua cabeça latejava, e seu corpo inteiro, era arrastado com brutalidade.
    — Está tentando se matar?! — rosnou Zacarias, aos poucos se tornando nítido em sua visão invertida.
   Chris tentou erguer a cabeça.
    — Como ela está? — perguntou sentindo-se mais fraco do que jamais estivera na vida.
   Chris se empenhara tanto para reviver a garota, que acabara desmaiando com a investida.
    — Vai ficar bem — resmungou Zack em resposta, largando o garoto de qualquer jeito, próximo a parede e dando as costas ao amigo adiantou-se para acender um cigarro.
   Chris engoliu em seco, a cabeça girava; a boca seca, o corpo inteiro dolorido. Seus olhos então correram de Taylor, caída metros à frente, até Zack, que fumava sem pressa apoiando em uma das estátuas que ladeavam o corredor.
   A sensação que o invadira, ao vislumbrar Taylor completamente recuperada, o invadiu de tal modo, que por mais de um minuto não pôde pronunciar nada, apenas grunhidos sem sentido.
   Zack o encarou com desdém.
    — Sabia que não pode fumar aqui, não é?! — suspirou Chris, tentando conter a euforia:   Taylor estava viva.
   Zack não lhe deu atenção, ao invés disso, resmungou com habitual tom de voz agressivo.
    — Quer dizer que agora se importa com humanos?! — a afirmação dita pelo homem parecia de alguma forma ridícula, ouvida por outra pessoa. — Está tentando se redimir com a sociedade ou coisa do tipo?!
   Chris tentou levantar, mas ao fazer isso, sua cabeça girou trezentos e sessenta graus impedindo-o.
    — Não salvamos humanos, e você sabe disso! — continuou Zack com o sermão.
   Chris havia arriscado tudo para salvar a garota, e somente agora que ela estava bem, a ficha começava a cair. Havia desacatado uma ordem direta e quebrado uma lei valiosa em seu mundo.   Estava encrencado, talvez nunca chegasse a ser o que tanto almejava...
    — Não me importo com humanos! — adiantou-se rapidamente, percebendo um lenço amarrado em torno do punho. Zack havia estancado o seu sangue, salvando sua vida.
    — Não se importa?! — perguntou irritado — Então me diga! O que foi tudo isso?
    — Foi por ela! — sua resposta fora sincera e pouco inteligente. — A Taylor não é qualquer humano... ela... ela é especial.
   Zack franziu a testa intrigado. E por um minuto se perguntara se havia a possibilidade do que ele dizia ser verdade.
    — Especial... ou especial para você?!
   Houve um segundo de indecisão onde ele avaliou bem o risco que corria falando a verdade.
    — Para mim, é claro! — e seus olhos correram do amigo até Taylor, ainda estirada ao chão.      — Não me importo com o resto...
   Chris jamais saberia explicar que tipo de poder Taylor exercia sobre ele. Sempre que se deparava com ela seu coração disparava, suas mãos pareciam gelar, e uma euforia o invadia, fazendo dele o homem mais feliz do mundo.
   Zack balançou a cabeça negativamente, e quando tornou a falar parecia mais debochado.
    — Apaixonado por uma humana! — ridicularizou. — Simplesmente decadente... Nunca se tornará um de nós enquanto se deixar levar por sentimentos.
    — Eu lamento! — suspirou timidamente.
   E uma sensação ruim o dominou. Era vergonha, vergonha de ter sentimentos, vergonha por se importar verdadeiramente com outra pessoa. Chris retirou o lenço do pulso que Zack usara para estancar o ferimento. Então se concentrou, e em poucos segundos o sangue retrocedeu fazendo o corte desaparecer como se nunca tivesse existido.
    — Vai me entregar? — fora impossível conter a pergunta. — Nunca me tornarei um...
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    — Sorte a sua não ter nada a ser entregue. — atalhou Zack bruscamente. — Não duvide que não o entregasse! Sigo a risca as leis do meu mundo... Do mundo que você almeja entrar! Sobretudo você não quebrou nenhuma lei! Ainda que ter sentimentos humanos seja uma vergonha, não é crime... E uma maldição claramente proibida fora usada contra os dois humanos em questão. E isso lhe dá o direito de tomar partido... se tiver o interesse, é claro!
   Chris sorriu, não acreditando nos próprios ouvidos. Não havia quebrado nenhuma regra. Impedira Taylor de morrer, e ainda assim poderia continuar os testes para, enfim, se juntar a Zack, em seu mundo.
    — Como secretum, você deveria conhecer bem essa maldição! — tornou Zack, consumindo o cigarro lentamente. — Seu nome é: Gildelia Lehmann! Foi bem comum na era moderna. Deu um trabalho e tanto para corte... Centenas de secretuns como você perderam a vida tentando impedir que se alastrasse!
   Agora que Zack tocara no assunto, Chris começara a recordar que já ouvira falar disso.
    — Click! Click! Click!
   Alguém entrava pelo corredor. O garoto, que ainda se encontrava fraco demais para levantar, olhou alarmado para Zack, que por sua vez, não retribui o olhar.
    — Click! Click! Click!
   Uma sombra emergiu pelo corredor, deslizando apressada até onde os dois se encontravam. Taylor continuava inconsciente, não havia tempo para fugir ou explicar, de fato, o que tinha acontecido.
   Chris se desesperou.
    — Eu, eu posso explicar! — adiantou-se, apoiando os braços na parede, para ficar de pé.
   Sua cabeça ainda girava, e o corpo se encontrava fraco. O vulto prosseguiu, até se tornar visível. Era Gisele, sua colega de classe. A garota parecia alarmada, os olhos arregalados.
    — Foram vocês que usaram essa magia?! — perguntou sem rodeios, exibindo os cabelos cacheados, ainda mais arrepiados do que normalmente eram.
    — Claro que não! — respondeu Zacarias com naturalidade, largando a bituca de cigarro no chão, e pisando em cima.
    — Ufa! Vocês teriam um problema e tanto se tivessem feito isso. — disse em tom de quem conhecia o assunto. — Gildelia Lehmann: maldição proibidíssima... Pena de morte, sem julgamento, para quem a usar!
   Zack fez que sim com a cabeça, apoiando-se a parede com displicência. Gisele prosseguiu.
— Um clássico. Pude sentir a energia a quilômetros de distância.
   Chris pôde sentir o estômago dar cambalhotas. Zack estava mesmo conversando com uma das estudantes de Acácia Artt? Como Gisele simplesmente entedia do assunto? Ou pressentiu magia sendo usada de tão longe?
    — Espere um pouco! — suspirou atordoado, tentando esclarecer as coisas — Vocês dois se conhecem?!
   Ambos assentiram, voltando a conversa.
    — Alguém morreu? — perguntou a garota, enquanto os olhos corriam de Zack para Taylor, ainda estirada ao chão — É a Taylor?! Vocês... salvaram uma humana?
   Em sua voz se tornou nítido o desprezo.
    — Foi ele! — acusou Zack na mesma hora, apontando para Chris como um irmão mais velho dedurando o caçula para os pais.
    — Uhm! Não posso dizer que estou surpresa, já tinha reparado na forma em que você a olha.    — esclareceu voltando-se para Chris.
   Ele encarou a amiga que, pela primeira vez, parecia a velha Gisele de sempre.
    — Não seria uma morte natural, não é?! — agora que sabia não ter infringido nenhuma regra havia se apegado a desculpa como se sempre tivesse consciência disso. — Pela lei, eu tenho direito de tomar partido pela vida do humano em questão se, claro, eu quiser fazer isso... e... bom, como ela estuda em Acácia...
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    — Ah, corta essa Chris! — interpelou Zack parecendo zangado. — Você gosta da humana, admita isso!
   Gisele pareceu decidida em congraçar os dois amigos, e então tornou a falar, ignorando o comentário de Zacarias.
    — O.k, já que vocês decidiram salvar a humana, é melhor fazer o trabalho completo. E temos pouco tempo para isso! Então tratem de arranjar uma nova proteção. Eu cuido da garota e de todo o resto.
   Chris mal tivera tempo de assimilar tudo o que estava acontecendo, e novas informações eram despejadas em sua cara.
    — Nova proteção? Do que você está falando? — perguntou incrédulo.
   Zack, que aparentemente conhecia o assunto, fez sinal para ele se calar.
    — Certo! Se vamos atrás de um agiota precisamos terminar antes que a garota acorde, ou o feitiço não será eficaz! — afirmou cruzando o corredor até Taylor, e cortando uma mecha de seu cabelo.
    — Agiota? — perguntou Chris, sentindo um calafrio perpassar o corpo — Vamos mesmo atrás de um deles?
    — Só se você quiser mesmo que a princesinha sobreviva! Eu particularmente acho que, sem proteção, ela não passa da primeira semana.
   Chris assentiu, e lançou um último olhar para Taylor. Ainda que quisesse estar presente quando ela despertasse era melhor partir, e garantir que algo assim jamais tornasse a acontecer.   Então, ele correu como pôde seguindo Zack.
    — Relaxa, ela vai ficar bem! — acrescentou Gisele, fitando o vulto dos dois amigos desaparecem por uma porta de metal.
   A forte tempestade ainda castigava o grande terreno de Acácia Artt. Chris correu como pôde, sentindo o corpo se recuperar aos poucos da grande perda de sangue. Zack já havia saltado o grande muro que cercava o campus de Acácia Artt, aguardando Chris, dentro de um Porsche azul marinho.
    — Na próxima vez tente se manter consciente enquanto doa o sangue para um humano! — resmungou assim que Chris sentou no banco do passageiro ligeiramente sem fôlego. — Coloque o cinto!
   Um segundo depois o carro partia em alta velocidade cantando pneus em meio o temporal. Chris pôde sentir as costas colarem junto ao banco de couro.
    — Eu preciso que você me esclareça algumas coisas! A Gisele é uma de nós?!
   Zack parecia mais preocupado com a pista escorregadia do que com as dúvidas que Chris pudesse ter. A tempestade tamborilava por cima do carro e pelo painel era difícil distinguir o caminho à frente.
    — Não costumo chamá-la pelo nome! Mas a resposta é sim, ela é uma de nós.
   Chris engoliu em seco, sem ter certeza se gostava ou não da ideia. Zack fizera uma curva larga, onde os pneus derraparam no solo escorregadio.
    — Mais alguma pergunta?
   Perguntas não faltavam. Restava a Chris decidir quais delas eram prioridades, já que conhecia bem o gênio do amigo, e esse não dispunha de muita paciência para explicar nada que não fosse extremamente crucial.
    — Existe mesmo alguma forma da Taylor recuperar a proteção? Sabe?! Ser como antes? Como se o episódio de hoje nunca tivesse acontecido?!
   O homem se manteve concentrado em ultrapassar alguns carros, aumentando ainda mais a velocidade.
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    — Nesse caso especifico, sim! Precisamos fazer um trato com um agiota, se ele aceitar, devolve a proteção da garota. E ela não se lembrara de nada do que aconteceu hoje... Será como nunca ter acontecido.
    — E se ele não aceitar?
    — O agiota é uma criatura extremamente ardilosa... Eles sempre acabam aceitando!
   Chris se manteve calado por alguns segundos. Já havia se deparado com um agiota, e sabia que nenhum poderia ser tão caridoso.
    — O que ele vai ganhar em troca?
   Zacarias continuava a dirigir como um piloto de racha, ultrapassando poucos automóveis que pareciam se arriscar em meio à tempestade. Por um minuto pareceu constrangido, e então disse:
    — O agiota vai apagar a memória dela, e dessa forma sua proteção natural voltará!
    — O.k! — respondeu Chris prontamente. — Mas não foi isso o que lhe perguntei.
   Zack fez que sim com a cabeça. Omitia uma parte crucial do trato.
    — Caso a humana perca novamente a proteção, ou de alguma forma torne a se lembrar, o demônio terá poderes para rastreá-la.
   Chris pôde sentir o calor desaparecer do corpo.
    — MAS ASSIM, ELE IRÁ MATÁ-LA!
    — É... Provavelmente, sim! — respondeu Zack de forma cínica. — Não te disse que era a melhor das escolhas! Mas em todo caso é a única que temos!
   O garoto desviou o olhar para fora do carro. Por algum tempo avaliou a situação antes de tornar a falar.
    — Acha que realmente vale a pena? Quer dizer, se ela perder novamente a proteção é morte na certa...
   Zack desviou por pouco da dianteira de um grande caminhão, enquanto tentava ultrapassar um carro, dirigido por um motorista um tanto lento.
    — Se ela perder novamente a proteção, certamente irá morrer. Seja pelo agiota, ou por qualquer outra criatura!
   Chris mordeu os lábios, assimilando o que acabara de ouvir. Por pior que fosse admitir, sem o agiota, Taylor não sobreviveria muito tempo.
   Zack continuou a dirigir, como se sua própria vida dependesse disso. Curvas arriscadas, ultrapassagens perigosas diminuíram pela metade o tempo que levariam para chegar à cidade baixa. A junção que tornara uma grande ilha na capital de Marcanso.
    — Estamos chegando! — informou ao cruzarem uma ponte, e ele reduzir a velocidade do Porsche. — Dentro do porta-luvas tem um recipiente de vidro, vamos precisar dele!
   Chris, que ainda mantinha a cabeça em Marcanso, demorou alguns segundos para vasculhar o interior do porta-luvas. Após alguns segundos, abriu o compartimento apanhando o frasco de vidro.
    — O que é isso? — perguntou olhando com nojo algo parecido com larvas se contorcerem dentro do pote.
    — Não vai querer saber! — alertou o amigo estacionando o carro, em uma avenida ladeada por prédios comerciais.
   O garoto observou tudo, parecendo surpreso.
    — Vamos mesmo achar um agiota no centro da cidade? — perguntou esforçado-se para divisar os grandes prédios espelhados que os cercavam.
    — Sim! — respondeu Zack, apanhando o frasco de vidro.
    — Mas as ruas ainda estão cheias de gente! — argumentou Chris, percebendo que aquilo tudo não fazia sentido.
   Um grupo de homens, vestidos de ternos, encharcados e maletas de couro passaram próximo ao carro, à procura de um táxi.
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    — Sem problemas, ninguém irá nos ver! — esclareceu Zacarias apanhando uma das larvas e engolindo-a.
   Chris se contorceu de nojo, sentindo imediatamente o estômago gemer como se recusasse aceitar aquilo.
    — Não vou comer isso! — informou rapidamente com os olhos fixos nas larvas que se contorciam de forma medonha.
   Zack lançou um olhar de censura.
    — Se pretende entrar na mansão negra sem acabar se tornando alimento de uma criatura faminta é bom que coma, e que coma rápido! — rosnou com pouca paciência deixando o carro, mas antes empurrando o frasco de vidro com brutalidade nas mãos do garoto.
   Chris preferiu não olhar novamente para o pote. Enfiou a mão direita sentindo dezenas de larvas subirem por seus dedos.
    — Não vomite! — disse a si mesmo. — Uma só! Somente uma, e isso acaba! — concluiu engolindo o mais rápido que podia.
   A larva se contorceu dentro de sua garganta por alguns segundos, fazendo-o acreditar que se sufocaria.
    — VAMOS! — gritou Zacarias impaciente, aguardando Chris embaixo da chuva.
   Chris pigarreou alto e deixou o do carro o mais rápido que pôde. Por um segundo seu corpo pareceu prestes a romper em chamas. O sangue de dentro de suas veias parecia ter sido substituído por fogo.
    — Estranho, não?! — disse Zack, seguindo na direção de um beco entre dois prédios.
    — Sim, parece que vou morrer queimado! — observou Chris, olhando para o vapor que fumegava por seus poros abertos.
   O amigo negou com a cabeça.
    — Não estou falando disso! — e desapareceu em meio à escuridão do beco. — Estou falando dessa situação: milhares de humanos tão próximos da morte sem nem ao menos suspeitarem disso, “bendita seja a ignorância que os mantém a salvo.”
    — Se você diz! — suspirou Chris pouco interessado, seguindo seu encalço pela rua sombria.
   O lugar era estreito e precário. Por toda parte se via dezenas de latões de lixo e caixas de papelão encharcadas pela água da chuva. Só havia espaço para uma pessoa passar por vez. Zack se manteve à frente.
    — O que exatamente é a mansão negra? — perguntou o garoto, ainda que sua cabeça estivesse longe, em Marcanso, imaginando como Taylor estava.
   O amigo parou por alguns segundos, as paredes do corredor se estreitavam ainda mais.
    — A mansão negra é onde fica concentrado o maior número de criaturas com inteligência, igual ou superior a humana. Mas fique tranquilo, a maioria não notará a nossa presença.
   O beco desembocou em um grande campo aberto, onde uma mansão colonial jazia em ruínas.    Chris observou cada detalhe com espanto. Pelo chão, centenas de restos mortais eram devorados por criaturas que de longe lembravam cães famintos. Alguns demônios pararam de se alimentar, farejando o ar, a centímetros de onde os dois atravessavam.
   Chris olhou-os com repugnância, cruzando o saguão de forma cautelosa, até chegar à porta da antiga mansão. Zack, que abria caminho, empurrou a grande porta, adentrando a propriedade sem maiores cerimônias. Chris veio pouco atrás, sentindo o fedor de morte e decomposição invadir suas narinas.
   Por um segundo fora como entrar em uma máquina do tempo, retrocedendo pelo menos duzentos anos. O interior da mansão era tão antigo quanto sua aparência externa. Paredes longas, revestidas por uma antiga tapeçaria. Piso de madeira, quadros, lustres de cristais, cortinas, e móveis antigos. É claro que tudo deteriorado pela força do tempo.
Pouco à frente, próximo a uma grande escadaria, se encontrava um amontoado de criaturas, suas silhuetas lembravam homens muito magros e carecas.
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    — Sem problemas até aqui? — confirmou Zack, cruzando o hall de entrada.
    — Tudo certo! — respondeu Chris, em seu encalço.
   O amontoado de demônios se voltou instintivamente na direção da porta, e seus olhos brilharam como pequenos cristais a procura de intrusos.
   Os dois homens por sua vez, seguiram pela escada onde os degraus velhos e gastos rangeram ao serem pisados. Pares e mais pares de olhos cintilantes os procuravam em toda parte.
   Então, um grito alto e estridente ecoou pela propriedade, como um alarme, acusando os invasores.
   Chris gelou, Zack retrocedeu alguns passos, e todas as criaturas se agitaram, farejando as escadas com desconfiança.
    — Droga! — deixou escapar Zack, fitando uma sombra emergir no topo da escada, e se curvar pelos degraus como uma grande aranha.
   Chris não tivera tempo de consultar o amigo, e o caminho que levava ate a porta fora obstruído por três criaturas compridas.
    — Quem está aí? — irrompeu uma voz feminina do topo da escada.
   E segundos depois um vulto caminhou com leveza, até se tornar nítido para os dois invasores.   Chris olhou surpreso para o que lhe pareceu uma mulher completamente humana.
    — Muito bem Ordina! — agradeceu a mulher ao demônio que de longe parecia uma grande aranha armando o bote. — Eu já os vi. E com isso fez sinal, para Ordina liberar o caminho.
   Chris se manteve imóvel, temendo tomar qualquer atitude. Zack era um imortal experiente, não os colocaria em uma situação realmente perigosa. Ou colocaria?!
   Os olhos da mulher caíram sobre os pés da escada, então cintilaram.
    — Zacarias Salles! — pronunciou com cordialidade — O que o traz a casa de Filiaggi Batolli?
   Zack rapidamente fez uma profunda reverência.
    — Dama negra?! Procuro por um agiota. — respondeu sem rodeios.
A mulher deu de ombro.
    — Sempre assuntos profissionais, não é mesmo?! Os anos passam, e você continua o mesmo...
    — E você também! — rebateu na mesma hora. — Continua tão bela, como no dia em que nos conhecemos.
   Filiaggi sorriu, exibindo dentes brancos e perfeitos. Chris pôde avistar melhor as suas formas. Era uma mulher alta, e com pouca cintura. Seus cabelos alaranjados, perfeitamente presos em um coque. Destacando ainda mais seu rosto redondo, e olhos verdes como uma esmeralda.   Ainda que fosse uma mulher acima do peso, era extremamente atraente, e de alguma forma fascinante.
    — Como sempre galanteador, não é! E esse quem é? — perguntou se referindo a Chris.
   Uma criatura semelhante a um cão farejou os pés do garoto, que se irritou acertando um chute no animal que grunhiu contrariado.
    — Um secretum?! — suspirou Filiaggi, e seus olhos faiscaram ainda mais. — Dezoito anos, forte, bonito, corajoso... Eu diria... Apaixonado!
   A dama parecia capaz de enxergar o fundo de sua alma.
    — Sentimentos não são aceitos em nosso mundo secretum. Especialmente um sentimento tão intenso como a paixão... Mas é claro... você já sabe disso!
   Chris abaixou a cabeça desejando que a análise tivesse terminado. Não queria ter a vida exposta, ainda mais por alguém que ele não conhecia.
    — Secretum! Secretum! Continuou ela de forma sutil. — Sua espécie é considerada a nova epidemia de nosso mundo... Mas você é diferente, é um nobre, esperado pela corte... É realmente um garoto de muita sorte!
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   Zacarias pigarreou alto interrompendo a mulher, que o encarou sem maiores pretensões. Chris se sentira aliviado com a interrupção.
   Os olhos de Filiaggi se tornaram verdes novamente.
    — Impaciente como sempre! — suspirou Filiaggi dando as costas à escada. — Livrem-se dessas cortinas de fumaça que os mantém invisíveis. — Exigiu inclinando a cabeça para o lado, para que os dois a seguissem. — Ninguém os atacara na minha casa! Não ao menos que eu mande, é claro!
   Chris e Zack seguiram-na rapidamente escada acima, junto com Filiaggi por longos e sombrios corredores. A água da chuva escorria por inúmeras rachaduras pelo teto dando a impressão de pequenas cascatas.
    — Ouvi dizer que vai se aposentar! — acrescentou Zack. E a proteção fumegante que saía por seus poros desapareceu.
   Chris pensou em imitá-lo, mas não tinha ideia de como ele havia feito isso.
    — Pelo visto as notícias continuam se espalhando com a velocidade do vento. Ouviu bem Zacarias, irei mesmo me aposentar! — confirmou Filiaggi, e desviou de restos mortais largados próximos a uma porta. — Vou me aposentar. Aproveitar o que restou de minha imortalidade.
   Zacarias riu.
    — Também pretendo fazer o mesmo assim que terminar alguns assuntos inacabados.
   Por um momento Chris se perguntou qual seria a real idade do amigo. Zack, não aparentava ter mais do que vinte anos. Mas ainda assim era um imortal, e como os demais, não costumava aparentar a idade.
   Um vulto alto caminhou e cruzou o corredor, aproximando-se rapidamente de onde estavam.
    — Esse é meu novo pupilo! — resmungou Filiaggi, acenando para o aprendiz continuar em frente.
   A jovem mulher conduziu-os até onde pareceu ser o sótão da casa — “é bom ter cuidado” — preveniu, enquanto observava uma grande porta surrada — “ele tem andado agitado. Talvez já soubesse de sua visita”.
    — Você não vai entrar? — perguntou Chris, falando com Filiaggi, pela primeira vez.
    — Entrar? Não mesmo! Quero me aposentar com vida, não arriscaria entrar em seu território com as mãos abanando.
   Chris e Zack trocaram olhares preocupados.
    — Eu vou sozinho! — afirmou, impedindo o garoto de argumentar.
    — Boa escolha! — afirmou Filiaggi, convicta.
Zack lançou uma última olhadela para trás, entrando sem pestanejar para dentro da sala. Chris aguardou pacientemente do lado de fora. Apurando os ouvidos para ouvir qualquer som que viesse do lado de dentro. Por quase uma hora nada foi ouvido. Até Zack irromper pela porta apressado.
    — Tive certo trabalho! — resmungou o homem, exibindo hematomas pelo corpo. — Por fim, ele acabou aceitando! Vamos, Chris, é melhor sairmos rápido.
   E então se curvou à frente da dona da casa:
    — Filiaggi, como sempre é um prazer...
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