quarta-feira, 2 de maio de 2012

Chris Beomont
— Capítulo seis —
Briga de namorados

Passos apressados se aproximaram da porta: revelando ao menos duas pessoas do outro lado. Chris, que ainda se recuperando do susto, bateu a porta do armário, e se esgueirou rapidamente para debaixo de um balcão repleto de cilindros de vidro.
   Seu coração pulsava acelerado e por um segundo acreditou seriamente que tinha posto tudo a perder... Que todo o esforço de sua mãe para que retornasse a estudar em Acácia Artt, fora em vão.
    — Eu não tenho nada para falar com você, David! — rosnou uma garota, do lado de fora do laboratório. — Quem o deixou entrar? Você nem ao menos estuda aqui...
    — Taylor, vamos conversar?! — suplicou uma voz masculina: que sem duvida pertencia ao tal David. — Não aguentei esperar! Precisava falar com você... Te dar uma satisfação!
Houve uma risada sarcástica, Taylor parecia irritada.
    — Não aguentou esperar...?!
   Chris deixou a segurança do balcão, e se esquivou como pôde até a porta do laboratório. Seu coração pulsava ainda mais acelerado. Podia ser a mesma Taylor? Taylor Collins?
   A porta foi aberta com cuidado, deixando uma pequena fresta, por onde ele espiou o corredor... E lá estava ela: de costas para a porta, encarando o homem que definitivamente era David.
    — Uma semana, David! — pontuou Taylor, e em sua voz era nítido o desapontamento. — Uma semana inteira, sem aparecer! E agora me diz que não aguentou esperar?!
   David não respondeu. Abaixou a cabeça como se admitisse o erro. E nesse mesmo instante, Chris o reconheceu. Era o mesmo David Borcy de cabelos cacheados, que na infância fora seu amigo. Seu rosto se mantinha inalterado. Apenas mais alto, um pouco mais velho, e sem o aparelho dentário que usava aos treze anos de idade.
   É claro que muita coisa havia mudado desde então. Chris fora internado em um hospital psiquiátrico, e David se tornara um famoso jogador de futebol, admirado, e repleto de fãs pelo mundo inteiro.
    — Você é patético! — agrediu Taylor. — Agora, faça-me o favor de sair da minha frente!
David se manteve imóvel, bloqueando completamente a passagem. Taylor por sua vez esquivou-se do namorado, e partiu pelo corredor, desaparecendo do olhar curioso de Chris.
    — EU TE DEI O COLAR QUE QUERIA, NÃO DEI?! — explodiu o jogador se zangado com falta de indulgência da namorada.
   Taylor retrocedeu alguns passos, voltando-se para ele. O rosto lívido de raiva.
    — Não David! Você pagou o colar! O que é uma coisa completamente diferente...
    — E não era o que queria? — replicou ele. — Você o escolheu, me fez gastar mais de cem mil...
   Taylor ficou repentinamente muda. Sua cabeça pendeu para os dois lados e então tornou a falar, dessa vez mais calma.
    — O que eu realmente queria era que você fosse ao meu aniversário... Quanto ao valor... É só dinheiro, eu mesma poderia ter comprado!
   Fora impossível para Chris não se divertir com a cena que presenciava. Sempre tivera uma queda pela garota, e agora que ela estava prestes a romper o namoro, ele poderia enfim ter a chance que sempre esperara!
   Houve segundos de silêncio, onde David se mostrou arrependido. Sem duvida, não tivera a intenção de ofendê-la. As palavras simplesmente saltaram de sua boca, em meio ao calor da discussão.
    — Pensei que soubesse. — continuo Taylor. — Quando vai entender?! A garota estava ainda mais desapontada. — O que eu preciso David, é de alguém que se importe comigo. E não finja se importar, tentando reparar a ausência com presentinhos... A Dawn tem feito isso há anos... Eu sinceramente não preciso de mais alguém como ela...
   Taylor se esquivou pelo corredor. E Chris precisou ficar nas pontas do pé, para enxergá-la.



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    — Eu sinto muito! — suspirou David sem jeito. — Eu realmente sinto muito... Nunca foi minha intenção faltar ao seu aniversário...
    — E porque faltou?
    — Eu não sei! — sua resposta fora baixa, quase um suspiro. — Eu simplesmente não faço ideia...
   Taylor contraiu o rosto, desconcertada. Não acreditava no que acabara de ouvir.
   Chris que espiava pela porta, conteve a risada, temendo que o som lhe entregasse.
    — Teve uma semana, e é isso o que tem a me dizer?
   David assentiu, parecia decepcionado consigo mesmo. Ainda mais decepcionado até mesmo do que Taylor pudesse estar.
— Sei que não é a melhor resposta! — começou timidamente. — Mas é a verdade! A última coisa que me recordo, é de estar me vestindo para o seu aniversário... Depois disso acordei em São Paulo... Dois dias depois...
   Taylor se manteve petrificada. Impossível para Chris àquela distância distinguir se ela realmente acreditava na desculpa do namorado.
    — Que desculpa mais esfarrapada! — suspirou irritada. — No mínimo você me traiu de novo!
   Ela deu as costas, e seguiu em frente, desaparecendo completamente do campo de vista de Chris.
    — Eu realmente não sei! — insistiu David. — Não me lembro de nada... Eu dou minha palavra!
    — Click! Click! Click!
   Os sapatos da garota ecoavam pelo corredor afastando-se cada vez mais. David irrompeu em seu encalço, e já não era possível vislumbrá-lo.
    — Será que pode me dar uma chance?! — suplicou apanhando o braço da namorada. — Já namoramos há tanto tempo, dê pelo menos uma chance de me redimir!
Não houve resposta. Chris aumentara a fresta da porta, e mesmo assim não pôde divisá-los. Estavam longe demais.
    — David, eu sinceramente...
    — Vamos jantar juntos? Só nós dois? Podemos conversar melhor?!
   A distância dificultava que Chris os ouvisse bem.
   Não aceite! Não aceite! Torceu ele, e a porta deslizou alguns centímetros, quase o derrubando ao corredor.
    — Apenas um jantar! Respondeu Taylor com frieza. — E a-propósito... Você esta com uma olheira terrível... Tente dormir, faz bem!
    — Click! Click! Click!
   O seu par de sapatos ecoaram pelo corredor, até cessarem. E Chris percebeu com um desconforto na boca do estômago, que ela havia partido.
   A porta girou para o lado, e finalmente ele deixou o laboratório exibindo um sorriso frio e maldoso. David ainda estava no corredor. Alguns metros à frente, a cabeça apoiada à parede.
    — Seis anos se passaram, e você continua o mesmo otário de sempre! — ridicularizou Chris cruzando o caminho do jogador.
   David se virara rapidamente, e então, seus olhos se arregalaram.
    — V-você! O que está fazendo... O que está fazendo aqui?!
    — Estudo aqui! — afirmou Chris, e seu tom de voz tivera a mesma frieza que Taylor usara com o jogador.
   David se afastou da parede e seus olhos se estreitaram.
    — Fique longe da Taylor! — rosnou entre dentes, parecendo um cão raivoso.— E fique longe da minha irmã...
   Chris, que estava próximo as escadas, parou de chofre e se voltou para David!
    —Talvez eu fique! — desafiou-o nitidamente se divertindo com o “aviso” de David. — Talvez não... Ainda não tenho certeza!
   David inflamou o peito como um pombo, e seus punhos se fecharam ameaçadoramente.
    — É melhor ficar longe, ou se não...
   Chris riu.



23 >>>                                            <<<23

    — Se não o quê?! — Chris rosnava em resposta. Em seu íntimo desejava que David finalmente tivesse coragem para atacá-lo. — Vai depor contra mim de novo, e correr atrás da garota que eu gosto?!
   Os dois agora se encaravam, os rostos próximos, quase testa com testa. Chris torcia por um motivo: que David lhe atacasse, que desse a desculpa que ele precisava para descontar toda sua ira.
   Contudo, David fora mais inteligente e se esquivou deixando um Chris furioso para trás.
    — Tarde demais não é?! — resmungou o garoto, ainda pregado próximo às escadas. — Você já fez isso... Como poderia fazer de novo?!



24 >>>                                            <<<24



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