Taylor
Collins
—
Capítulo sete —
Cid Artt
Já
passava das dez da noite quando Taylor se deu por vencida, e desistiu de
esperar pelo namorado, que há duas horas já deveria ter chegado ao encontro...
David havia falhado novamente... Justo
quando deveria empenhar-se para se redimir do erro anterior.
O restaurante Muniz: um lugar exclusivo,
frequentado apenas pela elite de Marcanso. Estava repleto de empresários e
socialites. Muitos deles de famílias conhecidas, o que tornava a sensação de
abandono ainda pior. A essa altura, seu coração pulsava com um misto de raiva e
tristeza. Como ele poderia ter feito isso de novo? Primeiro falhara em seu
aniversário... Agora a deixara plantada em um restaurante!
Um dos garçons que circulavam pelo salão,
emergiu ao seu lado. E ainda que exibisse um sorriso etéreo, Taylor suspeitou
que seu sorriso fosse de piedade. Não parecia realmente comum uma jovem se
sentar a uma mesa sozinha.
— Mais champanhe?! — perguntou com
cordialidade.
Os olhos da garota caíram sobre a taça
vazia, e então, pôde perceber que os ocupantes das mesas ao redor olhavam-na.
Ainda que sua vontade fosse de gritar ou usar o garçom como ombro amigo. Taylor
respirou fundo, e ao falar fora o mais elegante e indiferente possível.
— Na realidade, eu gostaria de acertar a
conta. — e com isso, retirou o cartão da bolsa, depositando discretamente nas
mãos do garçom.
— Pois não senhorita! — disse o homem,
girando nos calcanhares e desaparecendo entre as mesas bem iluminadas.
Minutos depois o garçom retornou à mesa,
dessa vez com o recibo do cartão. Ela se pôs de pé, sentindo que as cinco taças
de champanhe começavam a fazer efeito. Estava zonza, levemente embriagada, e
agora mais do que nunca: gostaria de gritar com David, de lhe falar tudo o que
estava entalado há dias em sua garganta.
Os olhares curiosos acompanharam-na até a
saída do restaurante. Onde precisou aguardar um táxi, já que contava com a
carona de David para voltar para casa.
O táxi não demorou a chegar, Taylor se
largou no banco de trás, torcendo para que o motorista não dissesse mais do que
o necessário.
— Condomínio Veríssimo Bulhões, por favor.
Instruiu Taylor apanhando o celular da bolsa. E deixando os dedos correrem
furiosamente pelo teclado. Diria o que estava sentindo para David, ainda que a
mensagem fosse direto para a caixa de recados.
— Eu realmente não sei por que ainda
fazemos isso! — sua voz estava embargada, mas ainda assim fria. — A cada dia
que passa, eu gosto ainda menos de você... — e com isso, desligou o celular
mordendo o lábio inferior.
Como se não bastasse ser humilhada na frente
da alta sociedade. A notícia do “bolo”
chegara até os alunos de Acácia Artt. E de aluna mais popular, Taylor se
tornara a chacota do colégio, sendo obrigada a ouvir todo tipo de comentários e
risadinhas histéricas por toda parte.
“Eu sinto muito Taylor!” lamentavam suas
amigas, com um inconfundível tom de piedade.
“Janta comigo, Taylor?!” zombavam os atletas
do time de rúgbi, sempre que cruzavam pela garota em alguma parte do campus. Um
dia depois, as piadas de mau gosto, já alcançavam um nível insuportável.
— Ah, vá pro inferno! — zangou-se Taylor,
após ouvir dois calouros darem risadinhas quando ela cruzou o corredor.
— Não adianta Taylor! — repetiu Monise, nos
dois primeiros dias. — Deixa essa história para lá e logo eles esquecem... Vais
ver!
Na sexta-feira uma forte tempestade tornara
o dia estressante e cansativo. Os corredores subterrâneos estavam cheios e
abafados. As aulas ao ar livre como: arte e educação física foram canceladas.
Não havia ninguém que se desse ao luxo de estar seco.
Já haviam passado quatro dias em que David a
deixara plantada no restaurante. E da mesma forma covarde que fizera em seu
aniversário. David simplesmente desaparecera sem justificativas ou qualquer
tipo de satisfação. Apenas um bilhete sobre a cabeceira da própria cama com informações
suficientes para que soubessem que estava vivo.
25 >>>
<<< 25
— Meu irmão é realmente um idiota! —
suspirou Monise desconfortável durante uma aula de biologia, em que três alunas
cochichavam sobre o assunto. — Se precisar desabafar, prometo ser o mais imparcial
possível!
Ainda que sua proposta fosse tentadora, há
dias Taylor estava completamente engasgada, ridicularizada por centenas de
alunos, e difamada pelos demais. Precisava desabafar com alguém que a
entendesse... Alguém que em nenhum momento, tentasse proteger David, ou
encontrar uma solução lógica para o que estava acontecendo. E esse alguém sem
dúvida era Vincent, seu grande confidente desde a sexta série, com quem Taylor
dividia tudo, principalmente as queixas sobre o namorado.
Com isso em mente, Taylor recusou a proposta
de Monise, e logo após o almoço correu para o banheiro mais afastado da escola,
próximo as quadras, onde encontrou Vincent, seu melhor amigo.
— Então, você acha mesmo que ele te traiu?
— perguntou o garoto sentado displicentemente sobre a tampa de um vaso
sanitário.
O banheiro em que estavam era precário,
contendo apenas três boxes, um espelho velho e desbotado, duas pias, com apenas
uma em funcionamento. Por esse motivo, todas as garotas evitavam o lugar,
tornando-o perfeito para quem quisesse se isolar.
— Provavelmente! — respondeu a garota com
displicência, encarando o próprio reflexo à frente da pia. Seus cabelos estavam
murchos, e sua maquiagem borrada. — Só não consigo entender, porque ele parecia
tão empenhado em se redimir, sabe?! Horas antes do jantar, ele parecia tão
arrependido...
Vincent encolheu os ombros e de uma forma
displicente, jogou os cabelos castanhos para o lado. A aproximação de suas
famílias os mantinha ligados desde a infância, e com os anos, a amizade do
casal havia crescido e se solidificado.
— É realmente muito estranho! — analisou
contraindo a sobrancelha. — Ele continua sem atender o celular?
Taylor começava a retocar a maquiagem
danificada pela chuva.
— Eu sinceramente não sei! — respondeu. —
Não tenho ligado! Ele errou, é ele quem precisa correr atrás, não acha?!
Vincent concordou com a cabeça, e antes que
pudesse tornar a falar, um click-click
de sapatos irrompeu próximo à porta do banheiro.
— Rápido, tem alguém chegando! — informou
Taylor gelando.
E a porta do banheiro girou para o lado.
Vincent, que estava sentado em cima de um vaso sanitário, esticou a mão
rapidamente, desaparecendo para dentro do box.
— Cachorra?! — cantarolou Pâmela, entrando
de forma teatral.
A socialite estava tão molhada quanto Taylor
e Vincent. Seus cabelos cor de prata, encharcados, e seus olhos borrados de
preto.
Taylor acenou com desânimo. Havia procurado
o banheiro para se isolar de todos, especialmente de Pâmela, quem parecia desprover
de bom senso.
— Você está sozinha aqui? — perguntou sem
cerimônia, dando um chega para lá em Taylor com os quadris. E tomando à frente
do espelho desbotado.
— Sim eu estou! — mentiu aborrecida.
Imaginando se havia alguma forma de tirar Vincent do box, sem que amiga o
visse.
Mesmo que estivesse molhada, Pâmela de
alguma forma parecia radiante. Como se a fase ruim que a amiga se encontrava
parecesse diverti-la como nunca.
— Não acredito em você! — afirmou com olhos
estranhamente projetados, de quem tramava alguma coisa. — Sinto cheiro de amigo
gay escondido!
26 >>>
<<< 26
Então, deixou a pia, e seus olhos correram
entre as portas abertas, até se fixarem à única fechada.
— Olá Vincent! — cantarolou.
Fez-se um segundo de silêncio. E então.
— Oi
Pâmela! — respondeu o garoto, saltando de dentro do box, e se voltando para a
amiga.— É, Taylor, acho que nos tornamos previsíveis!
Taylor deu de ombro e, como antes, tornou a
recuperar a maquiagem. Estava cansada de ser pega mentindo para Pâmela. Uma
mentira a mais ou a menos não faria diferença.
— Talvez estejamos, Vince. — começou com um
tom áspero. — Sabe Pâmela... Conversa de melhores amigos. Você saberia se
tivesse um, mas como a escola inteira parece ter medo de você...
Pâmela riu debochada, e voltando-se para a
frente do espelho ajustou a tiara de brilhantes.
— Você certamente quis dizer melhores
“amigas”, não é?! — e gargalhou de forma desvairada segurando o batom entre os
dedos. — Tudo bem, Taylor, eu também me isolaria se fosse a atual piada do
campus, ou o veterano mais enrustido que essa escola já viu.
Vincent se voltou para a socialite com cara
azeda. Taylor mordeu os lábios, fitando a amiga pelo reflexo do espelho.
— Enfim, sinceridades a parte! — tornou a
falar. — Eu vim atrás de você, porque sinceramente sua atual reputação me
preocupa, e como...
— Direto ao assunto Pâmela! — exigiu
Taylor, ainda mais séria do que antes.
— A amiga até poderia ter algumas
qualidades, mas preocupar-se com o próximo, sem sombra de dúvida não era uma
delas. Havia alguma armação por trás de sua repentina bondade!
— Como preferir! Eu esbarrei com o Chris
Beomont depois do almoço... E como sei que tem uma quedinha por ele... Não
tente negar, eu sei que tem!
Ainda que não tivesse movido um músculo
sequer, a simples menção do nome de Chris fizera seu coração saltar. Deparar-se
com ele pelos corredores fora sem dúvida seu único consolo na última semana.
— Então, pensei em uma forma de você se
vingar e recuperar a sua reputação que até segunda passada era impecável...
Vincent revirou os olhos com desdém. Pâmela
o ignorou.
— Imagina o escaldá-lo que seria se você
traísse o David com o Chris! —ela soltou um gritinho de excitação. — Isso seria
o máximo, e colocaria o David no lugar dele! Afinal quem ele pensa que é para
te desprezar desse jeito?!
A resposta não foi imediata. Taylor não
podia negar que sentia uma grande atração pelo garoto. Contudo, trair o namoro
com ele, não parecia direito.
— Taylor, se você trair o David só vai
estar se igualando a ele! — interveio Vincent de forma sensata.
— E quem foi que falou de se igualar?! —
rebateu Pâmela. — Eu estou falando de vingança... E admita Taylor, ficar com o
Chris não seria nenhum sacrifício...
A sineta que sinalizava o fim do intervalo
de almoço soou distante. E Taylor se sentiu agradecida com a ajuda. Não queria
responder a provocação de Pâmela. Ainda que em seu íntimo fosse exatamente o
que desejava fazer. Não por vingança, e sim, porque Chris parecia lhe despertar
algo que por mais que tentasse não sabia descrever.
— Aula de história! — informou apressada,
adiantando-se para a porta do banheiro.
Vincent
se manteve onde estava exibindo uma cara de interrogação. Pâmela que tinha a
mesma aula seguiu Taylor para fora do banheiro, ainda tagarelando pelos
cotovelos.
— Você deveria pensar seriamente em minha
proposta! — prosseguiu a amiga, no mesmo assunto, sobre a possível “traição!” —
Perdoar o David novamente só lhe dará mais direito para continuar com as
traições...
27 >>>
<<< 27
— Pâmela! — atalhou Taylor. — Ninguém falou
de traição até agora, e ainda que seja... Não pretendo perdoar o David... Pelo
menos não por enquanto!
Por mais que Taylor não gostasse realmente
de Pâmela, era obrigada a admitir, que suas maldades eram cômicas quando
direcionadas a outra pessoa.
Enquanto percorriam as quadras a caminho do
corredor subterrâneo, ninguém escapava de seus comentários maldosos, ou algum
tipo de trama maligna. Todos os alunos, especialmente os calouros, pareciam
temê-la, evitando cruzar seu caminho, ou simplesmente fugir de seu campo de
visão.
Nem mesmo Chris, a quem todos acreditavam
ser um assassino cruel, conseguia impor tanto pavor quanto ela.
Elas entraram por uma pequena porta de
metal, chegando ao corredor subterrâneo, onde o mar de alunos refugiava-se para
evitar a tempestade que caía ao lado de fora. Taylor se divertiu com os
comentários de Pâmela. E o “bolo” que levara de David, já não parecia tão
sério.
— Está vendo aquela porca esquisita? —
murmurou Pâmela, referindo-se a uma aluna gótica do terceiro ano.
Ainda que a jovem usasse o uniforme clássico
de Acácia Artt, seu estilo sombrio se sobressaia em sua maquiagem pesada e
braceletes de espeto.
— Sim, estou vendo.
Pâmela
abaixou o tom de voz para que nenhum dos estudantes próximos pudesse ouvir.
— Essa bolsista está saindo com o “moço”
que trabalha na biblioteca, patético, não?!
Taylor
não respondeu, apenas olhou para a amiga percebendo seus olhos se estreitaram
de malícia.
— Eu sei exatamente o que está pensando,
Taylor! Mas fique tranquila, eu mesma já tomei providências sobre o assunto.
Taylor engoliu em seco, e os comentários
maldosos já não pareciam tão engraçados como antes.
— Pâmela, o que exatamente você fez? — perguntou
temendo se arrepender com a resposta.
Pâmela exibiu um sorriso maldoso. E seus
olhos poderiam facilmente pertencer a um bandido cruel e desalmado.
— Deixei uma carta essa manhã com o Cid,
diretor! Sabe, meu pai como prefeito tem certas amizades, e a família Artt sem
dúvida é uma delas...
Ainda que igualmente fútil, Taylor, ao
contrário das amigas, não se importava com status, e menos ainda com o lema
gravado no topo dos portões de aço, que fechavam o campus. “... A arte da disciplina acadêmica para jovens
privilegiados.”
— Imagino que ele vá ser demitido, o
bibliotecário!
— Espero que sim! — disse com convicção, e
um brilho doentio surgiu em seus olhos. — E que essa bolsista seja expulsa...
Francamente! Namorar um funcionário... O Cid ficou realmente transtornado, você
tinha que ver!
Taylor não riu, tão pouco incentivou suas
maldades. Estava pasma, simplesmente pasma demais para tomar qualquer atitude!
— Não precisa agradecer! — gabou-se a
jovem, adiantando-se à porta que dava acesso ao prédio B. — Servir ao colégio e
a reputação da elite que aqui estuda, é mais do que uma obrigação, é um
prazer...
Após duas entediantes aulas de história,
Taylor que não pretendia ir embora antes sem concluir sua conversa com Vincent,
seguiu Pâmela e Monise até a escadaria que dava acesso ao prédio B. Observando despreocupada
as duas amigas serem apanhadas por seus motoristas, que rapidamente as
protegeram da tempestade usando grandes guarda-chuvas negros.
— Tchau meninas! — despediu-se, olhando sem
pretensão para a chuva.
Os dois carros mal seguiram pelo grande
portão, e uma voz masculina soou em seus ouvidos.
— Pelo visto vai chover o dia inteiro! —
alguém nitidamente tentava puxar assunto com ela.
28 >>>
<<< 28
Taylor não respondeu apenas virou-se
desinteressada para encarar quem falava, e para sua grande surpresa e choque,
era ele:
Chris a olhava de uma forma imponente e
intimidadora. Ainda que desarrumado pela chuva, continuava bonito e
completamente charmoso.
— Acho que sim! — respondeu sem ter certeza
do assunto que haviam entrado.
Nitidamente não contava com esse encontrão. Suas bochechas se tornaram
escarlate, e ela se sentiu como uma criança tímida. Impossibilitada de
encará-lo nos olhos.
Chris riu, e ambos ficaram em silêncio.
Apenas se olhando sem saber como prosseguir a conversa.
— Não que eu prefira dias de sol! —
esclareceu ela, reencontrando o assunto quase perdido. — Tem horas que me odeio por morar em um
país tão quente.
Ele
confirmara com a cabeça, ainda que gostasse de dias ensolarados.
— Sei exatamente como é! Você está indo
embora?
— Na verdade não. — respondeu com os olhos
vidrados nele. — Vou dar um pulo na biblioteca! E você?
— Vou embora! — respondeu mirando seus
olhos claros.
Os dois alunos mais seguros de Acácia Artt,
sorriram desviando seus olhares sem jeito. Não estavam acostumados a não saber
como agir, ou o que falar, e isso os incomodava.
Após algum tempo em silêncio, Chris se deu
por vencido.
— Bom, vou indo nessa.
Taylor assentiu seguindo para a biblioteca.
“Essa foi pior do que eu imaginava”, pensou, enquanto olhava de rabo de olho
para o lado. Mas Chris já havia partido.
Alguns alunos ainda corriam apressados pelo
corredor subterrâneo. Taylor cruzou o caminho com cuidado, desviando das poças
lamacentas causadas pela grande circulação, até chegar ao pé de uma íngreme
escadaria, por onde subiu, alcançando uma pequena porta de metal.
A porta rangera de modo implicante, e Taylor
adentrou a biblioteca sentindo o queixo cair.
O prédio mais velho do campus, que sempre
fora vasto e repleto de estantes de cinco metros de altura cada, agora estava
completamente restaurado, onde o teto construído na metade do século passado
parecia novo em folha, exibindo o belo vitral, repleto de cores e desenhos
pintados à mão. Taylor deixou os olhos curiosos correrem por todos os lados.
Cruzando o saguão lentamente, pisando por cima de uma novíssima rosa dos
ventos, esculpida no mármore de tons diferentes de preto e branco. Ela não deu
nem três passos pelo lustroso chão do salão, e...
— Posso lhe ajudar? — perguntou o jovem
bibliotecário, emergindo por de trás de uma estante de livros.
Taylor, que havia ido à biblioteca somente
para matar o tempo, negou gentilmente seu pedido seguindo em frente.
— Não vou precisar de ajuda... Mas em todo
o caso, esse lugar foi reformado?
O bibliotecário fez que sim com a cabeça,
parecendo empolgado. Ele era um pouco mais baixo que Taylor, e completamente
magro, onde os óculos pareciam encaixar sobre os olhos, como parte do corpo.
— Sim! Foi reformado no começo das
férias... Uma generosidade da família Beomont.
A garota fez um bico como se dissesse “minha
nossa!”. Taylor sabia bem que generosidade era o segundo nome para suborno em
Acácia Artt. Uma das formas que os pais milionários encontravam para manterem
seus filhos repetentes e encrenqueiros no colégio. Ela então seguiu para um
lado mais reservado, sentando-se em uma antiga e confortável poltrona. Abriu a
bolsa Luis Vuitton, retirando fones
de ouvidos e a nova edição da Vogue.
Por alguns minutos folheou a revista, escutando suas músicas preferidas. Até
que adormeceu...
Taylor abriu os olhos sentindo-se
completamente sonolenta. Por algum tempo encarou uma grande estante de livros,
sem entender ao certo onde estava.
29 >>>
<<< 29
— Mas que droga! — reclamou alarmada, ao
perceber que havia dormido. Taylor pulou da poltrona de couro derrubando o
aparelho de músicas no chão. Em seguida, enfiara a mão dentro da bolsa
revirando tudo até encontrar o celular, onde conferiu a hora.
Já passava das sete da noite, havia dormido
por três horas. Como isso poderia ter acontecido? A essa altura, sem dúvida
alguma o colégio estava fechado, e ela ficara para trás.
Rapidamente recolheu tudo o que conseguira
enxergar com a fraca claridade, sentindo um grande ódio correr por suas veias.
Como poderia ter dormido tanto? Por que ninguém a acordara?
Correu para o hall de entrada disposta a
reclamar com o bibliotecário, usá-lo como bode expiatório, mas não havia
ninguém.
— Francisco?! — rosnou histérica, com o
celular ao ouvido. — Eu preciso que você me busque! É, estou em Acácia...! Seus
olhos reviram nos órbitas. — Certo, obrigada!
E desligou o celular, deparando-se com uma
biblioteca completamente vazia. A essa altura Cid provavelmente já havia despedido o
funcionário.
A maior parte das luzes já estava apagada,
deixando todo o prédio de uma forma escura e agourenta. Taylor que podia
escutar a forte chuva cair ao lado de fora, sentiu-se ainda mais irritada em
vista do caminho que teria que seguir.
“Que a porta esteja aberta! Que a porta
esteja aberta!” — repetiu como um mantra, descendo a escadaria que dava acesso
ao túnel subterrâneo.
Sua mão tocou a porta que, rapidamente,
escorregou para o lado, abrindo passagem.
“Graças a Deus!” — agradeceu um pouco mais
aliviada, irrompendo pelo corredor.
— Click! Click! Click!
O túnel subterrâneo estava ainda mais
agourento do que a biblioteca. Taylor caminhou por ele sentindo um grande
desconforto, enquanto ouvia o som que seu par de sapatos emitia ampliados pelo
vácuo.
— Click! Click! Click!
Ela
apertou o passo, mesmo que seus pés doessem dentro de seu salto alto.
— Click! Click! Click!
O
corredor parecia ainda maior quando se percorria sozinho... Então as luzes
oscilaram... Taylor sentiu o coração disparar. Deslizando rapidamente a mão até
a bolsa, apanhou o celular, acelerando ainda mais a caminhada.
“É só um blecaute”. Repetiu mentalmente,
tentando não entrar em pânico. Não conseguia entender por que estava tão
assustada; seu corpo havia enrijecido como um instinto de sobrevivência sendo
usado pela primeira vez.
Taylor respirou fundo tentando se acalmar.
Iluminando o caminho à frente, com o aparelho celular.
— BUM!
Uma das portas de aço recebera uma forte
pancada, rangendo solitariamente para o lado. A garota se sobressaltara,
deixando escapar o celular entre os dedos.
“Droga!” — pensou abaixando-se
instintivamente. “Essa era a pior hora para ficar no escuro”, concluiu mentalmente,
enquanto apalpava o chão em busca do aparelho eletrônico. Seu estômago estava
congelado, e seus braços tremiam.
Alguém entrou pelo túnel. Não podia
vislumbrá-lo, mas podia ouvir seus passos pesados se arrastarem pelo chão.
“Está tudo bem” — reconfortou-se como pôde,
é apenas um dos seguranças. Somente isso!
Um grunhido alto e doloroso irrompeu pelo
corredor. Taylor pôde sentir os cabelos na nuca se arrepiarem.
— Quem está aí? — fora impossível conter a
pergunta, ainda que tivesse se arrependido segundos mais tarde.
Não houve resposta. Apenas os mesmos passos
pesados avançando com dificuldade.
30 >>>
<<< 30
— Merda! — reclamou, entrando em pânico.
As duas mãos corriam pelo chão frio, mas o
celular parecia ter caído muito longe. Então: as luzes de emergência foram
ativadas, iluminando tudo com sua claridade avermelhada.
Os olhos da garota demoraram alguns segundos
para adaptar-se a repentina claridade. Então, ainda abaixada, Taylor piscou
repetitivamente os olhos até um pouco à frente um homem se tornar visível.
Por um segundo se conteve para não gritar...
Cid, o atual diretor de Acácia Artt caminhava com dificuldade, manchando o piso
do túnel com o sangue que regurgitava pela boca.
— Oh meu Deus! Diretor, o senhor está bem?
Cid ergueu a cabeça, tentando prosseguir.
Então arrastou as pernas que pareciam pesadas como chumbo, atravessando meio
metro, até se estatelar segundos depois no chão.
Taylor deixou escapar um grito de susto,
disparando na direção do homem.
Cid havia caído de bruços, formando uma
grande poça de sangue em volta de seu corpo.
— Diretor, o senhor consegue me escutar? —
perguntou, tentando imaginar o que faria.
Ele não respondeu, simplesmente continuara
imóvel.
— Aguenta firme! Eu vou ajudar o senhor. —
suplicou, procurando uma forma de pedir ajuda sem deixá-lo sozinho!
Seus olhos correram pela pequena porta de
metal à frente, até seu celular caído a poucos metros de distância. Foi nesse
instante que pôde sentir os dedos finos e compridos de Cid se fecharam
rapidamente em seu tornozelo. A garota se sobressaltara, soltando um curto
grito.
— Diretor, o senhor precisa me soltar. —
informou ao sentir o forte aperto de sua mão.
— Diretor! — suplicou, tentando se
desvencilhar. — Eu vou ajudá-lo, mas preciso que o senhor me solte!
Sua voz vacilara ao sentir os longos dedos
se fecharem ainda mais.
— D-diretor! P-por f-favor... Me solte! —
implorou já não suportando a dor. — O senhor está me machucando! Eu vou
ajudá-lo!
Taylor ainda tentava se soltar, quando
sentiu os ossos do tornozelo partirem-se como simples gravetos. A garota
soltara um grito doloroso despencando de costas. Uma dor alucinante invadia seu
corpo. E ela fechou os olhos, desejando a todo custo que a dor cessasse.
Por alguns segundos esquecera onde estava,
ou simplesmente o que havia acontecido. Seu corpo formigava, e quando abriu os
olhos deparou-se com Cid. Agora em pé, encarando-a com grandes olhos
vermelho-sangue e a boca incrivelmente alongada.
— Diretor?
30 >>>
<<< 30
Nenhum comentário:
Postar um comentário