quarta-feira, 2 de maio de 2012





Taylor Collins
— Capítulo sete —
Cid Artt

Já passava das dez da noite quando Taylor se deu por vencida, e desistiu de esperar pelo namorado, que há duas horas já deveria ter chegado ao encontro...
   David havia falhado novamente... Justo quando deveria empenhar-se para se redimir do erro anterior.
   O restaurante Muniz: um lugar exclusivo, frequentado apenas pela elite de Marcanso. Estava repleto de empresários e socialites. Muitos deles de famílias conhecidas, o que tornava a sensação de abandono ainda pior. A essa altura, seu coração pulsava com um misto de raiva e tristeza. Como ele poderia ter feito isso de novo? Primeiro falhara em seu aniversário... Agora a deixara plantada em um restaurante!
   Um dos garçons que circulavam pelo salão, emergiu ao seu lado. E ainda que exibisse um sorriso etéreo, Taylor suspeitou que seu sorriso fosse de piedade. Não parecia realmente comum uma jovem se sentar a uma mesa sozinha.
    — Mais champanhe?! — perguntou com cordialidade.
   Os olhos da garota caíram sobre a taça vazia, e então, pôde perceber que os ocupantes das mesas ao redor olhavam-na. Ainda que sua vontade fosse de gritar ou usar o garçom como ombro amigo. Taylor respirou fundo, e ao falar fora o mais elegante e indiferente possível.
    — Na realidade, eu gostaria de acertar a conta. — e com isso, retirou o cartão da bolsa, depositando discretamente nas mãos do garçom.
    — Pois não senhorita! — disse o homem, girando nos calcanhares e desaparecendo entre as mesas bem iluminadas.
   Minutos depois o garçom retornou à mesa, dessa vez com o recibo do cartão. Ela se pôs de pé, sentindo que as cinco taças de champanhe começavam a fazer efeito. Estava zonza, levemente embriagada, e agora mais do que nunca: gostaria de gritar com David, de lhe falar tudo o que estava entalado há dias em sua garganta.
   Os olhares curiosos acompanharam-na até a saída do restaurante. Onde precisou aguardar um táxi, já que contava com a carona de David para voltar para casa.
   O táxi não demorou a chegar, Taylor se largou no banco de trás, torcendo para que o motorista não dissesse mais do que o necessário.
    — Condomínio Veríssimo Bulhões, por favor. Instruiu Taylor apanhando o celular da bolsa. E deixando os dedos correrem furiosamente pelo teclado. Diria o que estava sentindo para David, ainda que a mensagem fosse direto para a caixa de recados.
    — Eu realmente não sei por que ainda fazemos isso! — sua voz estava embargada, mas ainda assim fria. — A cada dia que passa, eu gosto ainda menos de você... — e com isso, desligou o celular mordendo o lábio inferior.
   Como se não bastasse ser humilhada na frente da alta sociedade. A notícia do “bolo” chegara até os alunos de Acácia Artt. E de aluna mais popular, Taylor se tornara a chacota do colégio, sendo obrigada a ouvir todo tipo de comentários e risadinhas histéricas por toda parte.
   “Eu sinto muito Taylor!” lamentavam suas amigas, com um inconfundível tom de piedade.
   “Janta comigo, Taylor?!” zombavam os atletas do time de rúgbi, sempre que cruzavam pela garota em alguma parte do campus. Um dia depois, as piadas de mau gosto, já alcançavam um nível insuportável.
    — Ah, vá pro inferno! — zangou-se Taylor, após ouvir dois calouros darem risadinhas quando ela cruzou o corredor.
    — Não adianta Taylor! — repetiu Monise, nos dois primeiros dias. — Deixa essa história para lá e logo eles esquecem... Vais ver!
   Na sexta-feira uma forte tempestade tornara o dia estressante e cansativo. Os corredores subterrâneos estavam cheios e abafados. As aulas ao ar livre como: arte e educação física foram canceladas. Não havia ninguém que se desse ao luxo de estar seco.
   Já haviam passado quatro dias em que David a deixara plantada no restaurante. E da mesma forma covarde que fizera em seu aniversário. David simplesmente desaparecera sem justificativas ou qualquer tipo de satisfação. Apenas um bilhete sobre a cabeceira da própria cama com informações suficientes para que soubessem que estava vivo.
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    — Meu irmão é realmente um idiota! — suspirou Monise desconfortável durante uma aula de biologia, em que três alunas cochichavam sobre o assunto. — Se precisar desabafar, prometo ser o mais imparcial possível!
   Ainda que sua proposta fosse tentadora, há dias Taylor estava completamente engasgada, ridicularizada por centenas de alunos, e difamada pelos demais. Precisava desabafar com alguém que a entendesse... Alguém que em nenhum momento, tentasse proteger David, ou encontrar uma solução lógica para o que estava acontecendo. E esse alguém sem dúvida era Vincent, seu grande confidente desde a sexta série, com quem Taylor dividia tudo, principalmente as queixas sobre o namorado.
   Com isso em mente, Taylor recusou a proposta de Monise, e logo após o almoço correu para o banheiro mais afastado da escola, próximo as quadras, onde encontrou Vincent, seu melhor amigo.
    — Então, você acha mesmo que ele te traiu? — perguntou o garoto sentado displicentemente sobre a tampa de um vaso sanitário.
   O banheiro em que estavam era precário, contendo apenas três boxes, um espelho velho e desbotado, duas pias, com apenas uma em funcionamento. Por esse motivo, todas as garotas evitavam o lugar, tornando-o perfeito para quem quisesse se isolar.
    — Provavelmente! — respondeu a garota com displicência, encarando o próprio reflexo à frente da pia. Seus cabelos estavam murchos, e sua maquiagem borrada. — Só não consigo entender, porque ele parecia tão empenhado em se redimir, sabe?! Horas antes do jantar, ele parecia tão arrependido...
   Vincent encolheu os ombros e de uma forma displicente, jogou os cabelos castanhos para o lado. A aproximação de suas famílias os mantinha ligados desde a infância, e com os anos, a amizade do casal havia crescido e se solidificado.
    — É realmente muito estranho! — analisou contraindo a sobrancelha. — Ele continua sem atender o celular?
   Taylor começava a retocar a maquiagem danificada pela chuva.
    — Eu sinceramente não sei! — respondeu. — Não tenho ligado! Ele errou, é ele quem precisa correr atrás, não acha?!
   Vincent concordou com a cabeça, e antes que pudesse tornar a falar, um click-click de sapatos irrompeu próximo à porta do banheiro.
    — Rápido, tem alguém chegando! — informou Taylor gelando.
   E a porta do banheiro girou para o lado. Vincent, que estava sentado em cima de um vaso sanitário, esticou a mão rapidamente, desaparecendo para dentro do box.
    — Cachorra?! — cantarolou Pâmela, entrando de forma teatral.
   A socialite estava tão molhada quanto Taylor e Vincent. Seus cabelos cor de prata, encharcados, e seus olhos borrados de preto.
   Taylor acenou com desânimo. Havia procurado o banheiro para se isolar de todos, especialmente de Pâmela, quem parecia desprover de bom senso.
    — Você está sozinha aqui? — perguntou sem cerimônia, dando um chega para lá em Taylor com os quadris. E tomando à frente do espelho desbotado.
    — Sim eu estou! — mentiu aborrecida. Imaginando se havia alguma forma de tirar Vincent do box, sem que amiga o visse.
   Mesmo que estivesse molhada, Pâmela de alguma forma parecia radiante. Como se a fase ruim que a amiga se encontrava parecesse diverti-la como nunca.
    — Não acredito em você! — afirmou com olhos estranhamente projetados, de quem tramava alguma coisa. — Sinto cheiro de amigo gay escondido!
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    Então, deixou a pia, e seus olhos correram entre as portas abertas, até se fixarem à única fechada.
    — Olá Vincent! — cantarolou.
   Fez-se um segundo de silêncio. E então.
    — Oi Pâmela! — respondeu o garoto, saltando de dentro do box, e se voltando para a amiga.— É, Taylor, acho que nos tornamos previsíveis!
    Taylor deu de ombro e, como antes, tornou a recuperar a maquiagem. Estava cansada de ser pega mentindo para Pâmela. Uma mentira a mais ou a menos não faria diferença.
    — Talvez estejamos, Vince. — começou com um tom áspero. — Sabe Pâmela... Conversa de melhores amigos. Você saberia se tivesse um, mas como a escola inteira parece ter medo de você...
   Pâmela riu debochada, e voltando-se para a frente do espelho ajustou a tiara de brilhantes.
    — Você certamente quis dizer melhores “amigas”, não é?! — e gargalhou de forma desvairada segurando o batom entre os dedos. — Tudo bem, Taylor, eu também me isolaria se fosse a atual piada do campus, ou o veterano mais enrustido que essa escola já viu.
   Vincent se voltou para a socialite com cara azeda. Taylor mordeu os lábios, fitando a amiga pelo reflexo do espelho.
    — Enfim, sinceridades a parte! — tornou a falar. — Eu vim atrás de você, porque sinceramente sua atual reputação me preocupa, e como...
    — Direto ao assunto Pâmela! — exigiu Taylor, ainda mais séria do que antes.
    — A amiga até poderia ter algumas qualidades, mas preocupar-se com o próximo, sem sombra de dúvida não era uma delas. Havia alguma armação por trás de sua repentina bondade!
    — Como preferir! Eu esbarrei com o Chris Beomont depois do almoço... E como sei que tem uma quedinha por ele... Não tente negar, eu sei que tem!
   Ainda que não tivesse movido um músculo sequer, a simples menção do nome de Chris fizera seu coração saltar. Deparar-se com ele pelos corredores fora sem dúvida seu único consolo na última semana.
    — Então, pensei em uma forma de você se vingar e recuperar a sua reputação que até segunda passada era impecável...
   Vincent revirou os olhos com desdém. Pâmela o ignorou.
    — Imagina o escaldá-lo que seria se você traísse o David com o Chris! —ela soltou um gritinho de excitação. — Isso seria o máximo, e colocaria o David no lugar dele! Afinal quem ele pensa que é para te desprezar desse jeito?!
   A resposta não foi imediata. Taylor não podia negar que sentia uma grande atração pelo garoto. Contudo, trair o namoro com ele, não parecia direito.
    — Taylor, se você trair o David só vai estar se igualando a ele! — interveio Vincent de forma sensata.
    — E quem foi que falou de se igualar?! — rebateu Pâmela. — Eu estou falando de vingança... E admita Taylor, ficar com o Chris não seria nenhum sacrifício...
   A sineta que sinalizava o fim do intervalo de almoço soou distante. E Taylor se sentiu agradecida com a ajuda. Não queria responder a provocação de Pâmela. Ainda que em seu íntimo fosse exatamente o que desejava fazer. Não por vingança, e sim, porque Chris parecia lhe despertar algo que por mais que tentasse não sabia descrever.
    — Aula de história! — informou apressada, adiantando-se para a porta do banheiro.
Vincent se manteve onde estava exibindo uma cara de interrogação. Pâmela que tinha a mesma aula seguiu Taylor para fora do banheiro, ainda tagarelando pelos cotovelos.
    — Você deveria pensar seriamente em minha proposta! — prosseguiu a amiga, no mesmo assunto, sobre a possível “traição!” — Perdoar o David novamente só lhe dará mais direito para continuar com as traições...
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    — Pâmela! — atalhou Taylor. — Ninguém falou de traição até agora, e ainda que seja... Não pretendo perdoar o David... Pelo menos não por enquanto!
   Por mais que Taylor não gostasse realmente de Pâmela, era obrigada a admitir, que suas maldades eram cômicas quando direcionadas a outra pessoa.
   Enquanto percorriam as quadras a caminho do corredor subterrâneo, ninguém escapava de seus comentários maldosos, ou algum tipo de trama maligna. Todos os alunos, especialmente os calouros, pareciam temê-la, evitando cruzar seu caminho, ou simplesmente fugir de seu campo de visão.
   Nem mesmo Chris, a quem todos acreditavam ser um assassino cruel, conseguia impor tanto pavor quanto ela.
   Elas entraram por uma pequena porta de metal, chegando ao corredor subterrâneo, onde o mar de alunos refugiava-se para evitar a tempestade que caía ao lado de fora. Taylor se divertiu com os comentários de Pâmela. E o “bolo” que levara de David, já não parecia tão sério.
    — Está vendo aquela porca esquisita? — murmurou Pâmela, referindo-se a uma aluna gótica do terceiro ano.
   Ainda que a jovem usasse o uniforme clássico de Acácia Artt, seu estilo sombrio se sobressaia em sua maquiagem pesada e braceletes de espeto.
    — Sim, estou vendo.
Pâmela abaixou o tom de voz para que nenhum dos estudantes próximos pudesse ouvir.
    — Essa bolsista está saindo com o “moço” que trabalha na biblioteca, patético, não?!
Taylor não respondeu, apenas olhou para a amiga percebendo seus olhos se estreitaram de malícia.
    — Eu sei exatamente o que está pensando, Taylor! Mas fique tranquila, eu mesma já tomei providências sobre o assunto.
   Taylor engoliu em seco, e os comentários maldosos já não pareciam tão engraçados como antes.
    — Pâmela, o que exatamente você fez? — perguntou temendo se arrepender com a resposta.
   Pâmela exibiu um sorriso maldoso. E seus olhos poderiam facilmente pertencer a um bandido cruel e desalmado.
    — Deixei uma carta essa manhã com o Cid, diretor! Sabe, meu pai como prefeito tem certas amizades, e a família Artt sem dúvida é uma delas...
   Ainda que igualmente fútil, Taylor, ao contrário das amigas, não se importava com status, e menos ainda com o lema gravado no topo dos portões de aço, que fechavam o campus. “... A arte da disciplina acadêmica para jovens privilegiados.”
    — Imagino que ele vá ser demitido, o bibliotecário!
    — Espero que sim! — disse com convicção, e um brilho doentio surgiu em seus olhos. — E que essa bolsista seja expulsa... Francamente! Namorar um funcionário... O Cid ficou realmente transtornado, você tinha que ver!
   Taylor não riu, tão pouco incentivou suas maldades. Estava pasma, simplesmente pasma demais para tomar qualquer atitude!
    — Não precisa agradecer! — gabou-se a jovem, adiantando-se à porta que dava acesso ao prédio B. — Servir ao colégio e a reputação da elite que aqui estuda, é mais do que uma obrigação, é um prazer...
   Após duas entediantes aulas de história, Taylor que não pretendia ir embora antes sem concluir sua conversa com Vincent, seguiu Pâmela e Monise até a escadaria que dava acesso ao prédio B. Observando despreocupada as duas amigas serem apanhadas por seus motoristas, que rapidamente as protegeram da tempestade usando grandes guarda-chuvas negros.
    — Tchau meninas! — despediu-se, olhando sem pretensão para a chuva.
   Os dois carros mal seguiram pelo grande portão, e uma voz masculina soou em seus ouvidos.
    — Pelo visto vai chover o dia inteiro! — alguém nitidamente tentava puxar assunto com ela.
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   Taylor não respondeu apenas virou-se desinteressada para encarar quem falava, e para sua grande surpresa e choque, era ele:
   Chris a olhava de uma forma imponente e intimidadora. Ainda que desarrumado pela chuva, continuava bonito e completamente charmoso.
    — Acho que sim! — respondeu sem ter certeza do assunto que haviam entrado.
   Nitidamente não contava com esse encontrão. Suas bochechas se tornaram escarlate, e ela se sentiu como uma criança tímida. Impossibilitada de encará-lo nos olhos.
   Chris riu, e ambos ficaram em silêncio. Apenas se olhando sem saber como prosseguir a conversa.
    — Não que eu prefira dias de sol! — esclareceu ela, reencontrando o assunto quase perdido.    — Tem horas que me odeio por morar em um país tão quente.
Ele confirmara com a cabeça, ainda que gostasse de dias ensolarados.
    — Sei exatamente como é! Você está indo embora?
    — Na verdade não. — respondeu com os olhos vidrados nele. — Vou dar um pulo na biblioteca! E você?
    — Vou embora! — respondeu mirando seus olhos claros.
   Os dois alunos mais seguros de Acácia Artt, sorriram desviando seus olhares sem jeito. Não estavam acostumados a não saber como agir, ou o que falar, e isso os incomodava.
   Após algum tempo em silêncio, Chris se deu por vencido.
    — Bom, vou indo nessa.
   Taylor assentiu seguindo para a biblioteca. “Essa foi pior do que eu imaginava”, pensou, enquanto olhava de rabo de olho para o lado. Mas Chris já havia partido.
   Alguns alunos ainda corriam apressados pelo corredor subterrâneo. Taylor cruzou o caminho com cuidado, desviando das poças lamacentas causadas pela grande circulação, até chegar ao pé de uma íngreme escadaria, por onde subiu, alcançando uma pequena porta de metal.
   A porta rangera de modo implicante, e Taylor adentrou a biblioteca sentindo o queixo cair.
   O prédio mais velho do campus, que sempre fora vasto e repleto de estantes de cinco metros de altura cada, agora estava completamente restaurado, onde o teto construído na metade do século passado parecia novo em folha, exibindo o belo vitral, repleto de cores e desenhos pintados à mão. Taylor deixou os olhos curiosos correrem por todos os lados. Cruzando o saguão lentamente, pisando por cima de uma novíssima rosa dos ventos, esculpida no mármore de tons diferentes de preto e branco. Ela não deu nem três passos pelo lustroso chão do salão, e...
    — Posso lhe ajudar? — perguntou o jovem bibliotecário, emergindo por de trás de uma estante de livros.
   Taylor, que havia ido à biblioteca somente para matar o tempo, negou gentilmente seu pedido seguindo em frente.
    — Não vou precisar de ajuda... Mas em todo o caso, esse lugar foi reformado?
   O bibliotecário fez que sim com a cabeça, parecendo empolgado. Ele era um pouco mais baixo que Taylor, e completamente magro, onde os óculos pareciam encaixar sobre os olhos, como parte do corpo.
    — Sim! Foi reformado no começo das férias... Uma generosidade da família Beomont.
   A garota fez um bico como se dissesse “minha nossa!”. Taylor sabia bem que generosidade era o segundo nome para suborno em Acácia Artt. Uma das formas que os pais milionários encontravam para manterem seus filhos repetentes e encrenqueiros no colégio. Ela então seguiu para um lado mais reservado, sentando-se em uma antiga e confortável poltrona. Abriu a bolsa Luis Vuitton, retirando fones de ouvidos e a nova edição da Vogue. Por alguns minutos folheou a revista, escutando suas músicas preferidas. Até que adormeceu...
   Taylor abriu os olhos sentindo-se completamente sonolenta. Por algum tempo encarou uma grande estante de livros, sem entender ao certo onde estava.
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    — Mas que droga! — reclamou alarmada, ao perceber que havia dormido. Taylor pulou da poltrona de couro derrubando o aparelho de músicas no chão. Em seguida, enfiara a mão dentro da bolsa revirando tudo até encontrar o celular, onde conferiu a hora.
   Já passava das sete da noite, havia dormido por três horas. Como isso poderia ter acontecido? A essa altura, sem dúvida alguma o colégio estava fechado, e ela ficara para trás.
   Rapidamente recolheu tudo o que conseguira enxergar com a fraca claridade, sentindo um grande ódio correr por suas veias. Como poderia ter dormido tanto? Por que ninguém a acordara?
   Correu para o hall de entrada disposta a reclamar com o bibliotecário, usá-lo como bode expiatório, mas não havia ninguém.
    — Francisco?! — rosnou histérica, com o celular ao ouvido. — Eu preciso que você me busque! É, estou em Acácia...! Seus olhos reviram nos órbitas. — Certo, obrigada!
   E desligou o celular, deparando-se com uma biblioteca completamente vazia. A essa altura   Cid provavelmente já havia despedido o funcionário.
   A maior parte das luzes já estava apagada, deixando todo o prédio de uma forma escura e agourenta. Taylor que podia escutar a forte chuva cair ao lado de fora, sentiu-se ainda mais irritada em vista do caminho que teria que seguir.
   “Que a porta esteja aberta! Que a porta esteja aberta!” — repetiu como um mantra, descendo a escadaria que dava acesso ao túnel subterrâneo.
   Sua mão tocou a porta que, rapidamente, escorregou para o lado, abrindo passagem.
   “Graças a Deus!” — agradeceu um pouco mais aliviada, irrompendo pelo corredor.
    — Click! Click! Click!
   O túnel subterrâneo estava ainda mais agourento do que a biblioteca. Taylor caminhou por ele sentindo um grande desconforto, enquanto ouvia o som que seu par de sapatos emitia ampliados pelo vácuo.
    — Click! Click! Click!
Ela apertou o passo, mesmo que seus pés doessem dentro de seu salto alto.
    — Click! Click! Click!
O corredor parecia ainda maior quando se percorria sozinho... Então as luzes oscilaram... Taylor sentiu o coração disparar. Deslizando rapidamente a mão até a bolsa, apanhou o celular, acelerando ainda mais a caminhada.
   “É só um blecaute”. Repetiu mentalmente, tentando não entrar em pânico. Não conseguia entender por que estava tão assustada; seu corpo havia enrijecido como um instinto de sobrevivência sendo usado pela primeira vez.
   Taylor respirou fundo tentando se acalmar. Iluminando o caminho à frente, com o aparelho celular.
    — BUM!
   Uma das portas de aço recebera uma forte pancada, rangendo solitariamente para o lado. A garota se sobressaltara, deixando escapar o celular entre os dedos.
   “Droga!” — pensou abaixando-se instintivamente. “Essa era a pior hora para ficar no escuro”, concluiu mentalmente, enquanto apalpava o chão em busca do aparelho eletrônico. Seu estômago estava congelado, e seus braços tremiam.
   Alguém entrou pelo túnel. Não podia vislumbrá-lo, mas podia ouvir seus passos pesados se arrastarem pelo chão.
   “Está tudo bem” — reconfortou-se como pôde, é apenas um dos seguranças. Somente isso!
   Um grunhido alto e doloroso irrompeu pelo corredor. Taylor pôde sentir os cabelos na nuca se arrepiarem.
    — Quem está aí? — fora impossível conter a pergunta, ainda que tivesse se arrependido segundos mais tarde.
   Não houve resposta. Apenas os mesmos passos pesados avançando com dificuldade.
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    — Merda! — reclamou, entrando em pânico.
   As duas mãos corriam pelo chão frio, mas o celular parecia ter caído muito longe. Então: as luzes de emergência foram ativadas, iluminando tudo com sua claridade avermelhada.
   Os olhos da garota demoraram alguns segundos para adaptar-se a repentina claridade. Então, ainda abaixada, Taylor piscou repetitivamente os olhos até um pouco à frente um homem se tornar visível.
   Por um segundo se conteve para não gritar... Cid, o atual diretor de Acácia Artt caminhava com dificuldade, manchando o piso do túnel com o sangue que regurgitava pela boca.
    — Oh meu Deus! Diretor, o senhor está bem?
   Cid ergueu a cabeça, tentando prosseguir. Então arrastou as pernas que pareciam pesadas como chumbo, atravessando meio metro, até se estatelar segundos depois no chão.
   Taylor deixou escapar um grito de susto, disparando na direção do homem.
   Cid havia caído de bruços, formando uma grande poça de sangue em volta de seu corpo.
    — Diretor, o senhor consegue me escutar? — perguntou, tentando imaginar o que faria.
   Ele não respondeu, simplesmente continuara imóvel.
    — Aguenta firme! Eu vou ajudar o senhor. — suplicou, procurando uma forma de pedir ajuda sem deixá-lo sozinho!
   Seus olhos correram pela pequena porta de metal à frente, até seu celular caído a poucos metros de distância. Foi nesse instante que pôde sentir os dedos finos e compridos de Cid se fecharam rapidamente em seu tornozelo. A garota se sobressaltara, soltando um curto grito.
    — Diretor, o senhor precisa me soltar. — informou ao sentir o forte aperto de sua mão.
    — Diretor! — suplicou, tentando se desvencilhar. — Eu vou ajudá-lo, mas preciso que o senhor me solte!
   Sua voz vacilara ao sentir os longos dedos se fecharem ainda mais.
    — D-diretor! P-por f-favor... Me solte! — implorou já não suportando a dor. — O senhor está me machucando! Eu vou ajudá-lo!
   Taylor ainda tentava se soltar, quando sentiu os ossos do tornozelo partirem-se como simples gravetos. A garota soltara um grito doloroso despencando de costas. Uma dor alucinante invadia seu corpo. E ela fechou os olhos, desejando a todo custo que a dor cessasse.
   Por alguns segundos esquecera onde estava, ou simplesmente o que havia acontecido. Seu corpo formigava, e quando abriu os olhos deparou-se com Cid. Agora em pé, encarando-a com grandes olhos vermelho-sangue e a boca incrivelmente alongada.
    — Diretor?
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