Chris
Beomont
— Capítulo oito —
Taylor Collins
A
forte tempestade tornara a inevitável invasão da sala de química mais fácil e
segura. Chris que havia se escondido após o término das aulas. Auxiliara Zack
em sua entrada clandestina. Ainda que não concordasse plenamente com a ideia.
— Vamos pegar a especiaria e cair fora,
certo?! — confirmou enquanto ele e o amigo percorriam os solitários corredores
do prédio B.
— Claro que sim! — respondeu um Zacarias
pouco convincente. — É aqui?! — perguntou segundos depois, parando de chofre à
frente do laboratório de química.
Chris fizera que sim com a cabeça, e por uma
fração de segundos imaginou se Zack já não havia invadido o colégio
anteriormente.
— Abra! — e a porta girou para o lado dando
passagem.
Os olhos do homem se estreitaram, e antes
que o garoto pudesse adentrar a sala, Zack tornou a falar.
— Eu entro sozinho, vigie o corredor!
Chris se voltou para ele contrariado, seus
olhos exibiam sua total desconfiança. Sabia o quanto Zack desprezava regras e
leis humanas. E com esse pensamento, temeu que o amigo furtasse do laboratório
o suficiente para chamar atenção. Após alguns segundos se deu por vencido e
liberou a passagem para a sala.
— Seja rápido! — resmungou, enquanto Zack
desaparecia para dentro da porta.
Chris havia perdido muitos anos de sua vida
internado no hospital psiquiátrico Cezar Silld, e ainda que pudesse parecer
besteira para o amigo, era impossível não temer que as tarefas que precisava
cumprir, acabassem causando algum problema para ele ou sua família. Sobretudo,
Zack era seu primeiro contato com a corte. E não seria sábio contrariá-lo.
Após alguns minutos, Zacarias emergiu de
volta para o corredor.
— Vamos!
Chris assentiu, agradecendo a rapidez com
que ele tratara a invasão, e com grande alívio seguiu Zack, examinando a
mochila que ele carregava nas costas. Sem sombra de dúvida, parecia repleta de
objetos.
— Você tomou cuidado para não notarem o
roubo, não é?! — fora impossível conter a pergunta.
— Claro! — respondeu Zack sem pestanejar. —
Estou acostumado com esse tipo de trabalho!
O
garoto assentira descrente, torcendo para que fosse verdade.
— Espero que sim! — resmungou mais para si
mesmo do que para o companheiro...
Então, algo o impediu de seguir em frente,
havia uma estranha energia pairando sobre o ar. Uma energia baixa, e sombria...
— O quê?! Perguntou Zack que andava à
frente, virando-se para encará-lo.
— Você sentiu? Sentiu isso?
— Não senti nada! Agora vamos, teremos uma
noite cheia. Negligenciou Zack, apanhando Chris pelo braço.
A energia se tornou ainda mais poderosa.
— Espere! — respondeu rapidamente,
desvencilhado-se de suas mãos. — Tem algo errado, algo muito errado.
Zack contraiu a face, visivelmente irritado.
E daí que tivesse algo de errado com o lugar. O colégio não era de sua conta e
depois de roubar tudo o que precisava, já não via motivos para se manter ali.
— Sempre tem alguma coisa errada, Chris!
Vamos embora. Independendo do que seja, não é da nossa conta.
Chris não cedera. Ao invés disso, deu as
costas para o companheiro, refazendo o caminho que havia feito. Zack que a essa
altura sentia-se terrivelmente contrariado, o seguiu corredor adentro.
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— O que você está vendo? — perguntou. E o
desinteresse se tornou nítido em sua voz.
— Não estou propriamente vendo, e sim
sentindo. — respondeu ausente, adentrando o longo corredor, até chegar à frente
de uma grande porta dupla.
— Parece vir daqui! — suspirou intrigado, e
seus olhos correram por um delicado letreiro de bronze: Escritório de Cid Artt.
Zack se manteve relutante.
— Vamos embora! — rosnou impaciente.
— Não! — contestou Chris examinando a
porta. — Tem alguma coisa realmente estranha...
Ainda que não pudesse descrever, em seu
íntimo, sabia que se ignorasse o que sentia, poderia se arrepender amargamente
por isso.
Zack bufou irritado, e retirou do bolso um
pequeno giz preto.
— Pegue! — avisou atirando o material pelo
ar.
Chris o apanhou com grande destreza, e seus
olhos correram pelo giz, que conhecia bem.
— É só moer, não é?!
O homem confirmou com a cabeça, ainda mais impaciente
do que antes.
— Apenas jogue as cinzas para o ar.
Chris assentiu, esmagando o giz com a palma
da mão.
— Vamos! — reclamou Zack. — Acabe logo com
isso!
O garoto mirou a porta atirando as cinzas em
sua direção. Por uma fração de segundos a poeira negra pairou pelo ar, como se
atingisse um recipiente de água, expandindo-se lentamente pela superfície.
Zack que não contava com esse tipo de
reação, arregalou os olhos.
— Mas que droga é essa?
A poeira negra ganhou ainda mais forma e,
com a semelhança de um cometa, atingiu a porta dupla arrancando-a pelas
dobradiças.
Os dois homens pularam para trás. E teias
negras surgiram por dentro do escritório de Cid Artt, o atual diretor.
— Magia negra?! — certificou-se o garoto voltando-se
para um Zacarias boquiaberto.
— Não! — respondeu prontamente, analisando
os vestígios negros que pairavam pelo ar.
As
teias cintilavam, flutuando fantasmagoricamente.
— É algo muito pior do que isso...
O garoto engoliu em seco, impossibilitado de
olhar para qualquer outro lado que não fosse o interior do escritório.
— Em Acácia Artt?! Não entendo! O que
atrairia algo assim por aqui?
— Nem eu! E por sorte, isso não é da nossa
conta, vamos?! — insistiu Zack, ignorando a sala que a cada segundo se tornava
mais escura.
Chris congelou.
— Um minuto... Estou vendo alguma coisa! —
imagens pouco nítidas formaram-se em sua mente.
Zacarias bufou irritado. Sabia que uma
maldição poderosa havia sido usada contra alguém, provavelmente o dono do
escritório à frente. E o mais sensato a se fazer era evitar quem conjurara esse
tipo de poder.
— Quantos são? — perguntou segundos depois,
percebendo que não adiantaria arrastar Chris para fora do colégio.
— Um... Talvez dois... Ainda não tenho
certeza...
Zack engoliu em seco.
— Existe algum tipo de risco? Algum risco
para nós?
Chris se esforçou o máximo para que as
visões que flutuavam por sua mente se tornassem mais nítidas. E quando tornou a
falar, sua resposta fora categórica.
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— Sim... Existe um grande risco! Posso
sentir uma fome devastadora... Algum tipo de criatura recém nascida...
— Ou recém criada! — atalhou Zack. — O.k!
Então vamos embora, antes que isso nos traga problemas.
Chris ignorou sua ordem.
— Está se aproximando de algum humano...
vai atacá-lo...
A mão firme de Zack se fechou em torno de
seu braço, e então ele disse.
— Não queria estar na pele dele, vamos?!
Chris
pôde sentir o estômago congelar.
— Taylor!
— exclamou com urgência na voz. — Vai atacar a Taylor...
Zack,
que já seguiu em frente, se voltou para trás com brutalidade.
— Antes ela do que você...
— Não! — gritou em protesto. — Você não
está entendendo, ele vai atacar a Taylor, vai matá-la!
— E quem se importa? Não somos super-heróis
Chris, não interferimos no ciclo.
Chris desacatou sua ordem. Sentia como se um
trem desgovernado o tivesse atropelado. Não deixaria... Não permitiria que
nada, nem ninguém fizessem mal a garota.
Zack previu sua atitude, apanhando rapidamente
seu braço.
— Não pense em quebrar o ciclo! Se ela puder defrontá-lo, é
porque chegou sua hora!
— NÃO! — gritou, atirando o companheiro
para o lado, e disparou pelo corredor sem se preocupar em achar uma desculpa
para salvar a vida da garota... Repentinamente, ingressar no mundo que tanto
sonhava, deixara de ser importante... Taylor era mais. Mais do que ele pudesse
imaginar!
Seu coração pulsava acelerado, e o ar
parecia ter deixado de existir... Precisava ser rápido... O corredor parecia
interminável... Então Chris alcançou as escadarias. Descendo por elas como uma
bala. Terceiro andar — Segundo andar — primeiro andar — Térreo... E enfim, o
último lance de escadas que levava até o túnel subterrâneo. Chris saltou os
últimos quinze degraus, irrompendo pela porta de metal que dava acesso ao
túnel...
O coração apertado, como se uma mão
invisível se fechasse sobre ele.
Taylor gritava por ajuda. O garoto entrou
pelo túnel correndo em disparada. A poucos metros de distância se encontrava a
garota, tentando se desvencilhar das mordidas do diretor.
— Taylor!
Ela já parecia sem forças para continuar.
Taylor estava caída no chão, coberta de sangue enquanto o homem de cabelos
grisalhos a prendia, mordendo seu braço de uma forma voraz.
Chris
parou por um segundo, analisando a cena. Precisava tirá-lo de cima dela, sem
que se machucasse ainda mais.
Zack chegou pouco depois, derrapando atrás
do garoto.
— Odeio correr sem motivos! — rosnou de uma
forma agressiva, enquanto tentava recuperar o ar.
As luzes de emergência oscilaram. Houve uma
pancada, e Chris fora derrubado por uma força descomunal. Mandíbulas ferozes se
fecharam próximo ao seu pescoço, e ele precisou de toda a força para evitar a
mordida... O fedor de sangue, a apenas centímetros de seu nariz.
— Não deixe que ele o morda! — soou a voz
de Zack vinda de algum lugar.
As luzes de emergência oscilavam como nunca,
e Chris já não conseguia se adaptar a claridade.
Suas mãos se fecharam sobre o maxilar do
homem que horas antes era um senhor calmo e educado. Cid havia se tornado um
mostro; uma espécie de demônio, ou amaldiçoado... O que era exatamente? Chris
não sabia dizer... Apenas que não poderia ser mordido por ele. Precisava agir
rápido.
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Suas mãos firmes sobre o maxilar do diretor
se contraíram, e segundos depois, Chris quebrara seu pescoço, até sentir os
ossos se tornarem migalhas.
— Isso não vai adiantar! — informou Zack
pouco atrás de onde estavam.
Chris o encarou com a imagem invertida, e
ainda lutando com Cid, vislumbrou Zack ficar de joelhos, e traçar o chão com
outro giz, de cor negra.
O garoto contraiu os joelhos, e com o
auxílio dos braços atirou o velho para trás. Cid rodopiou pelo ar, caindo de
pé, como a habilidade de um gato.
— Oh droga!
Não
houve tempo para mais nada, o diretor agora investia contra o garoto, ainda
mais rápido do que da primeira vez...
Chris, que olhava preocupado para Taylor,
mal teve tempo de se proteger, sentindo dentes afiados perfurarem os músculos
do braço esquerdo. Ele urrou de dor.
— Eu disse para não deixá-lo te morder! —
gritou Zack parecendo zangado.
Era como se tudo ao redor tivesse sido
apagado, e um novo teste posto em andamento.
— Ainda não sabemos que tipo de coisa você
esta enfrentando... Pode ser que seja venenoso!
As
mandíbulas continuaram a se fechar rapidamente à procura de sua carne.
— Você precisa destruir completamente o
corpo! — gritou Zack, traçando o chão com uma mistura de símbolos e palavras.
— Certo! — respondeu o outro afobado,
segurando a cabeça do diretor com a mão esquerda, e com a direita fechada em
punho.
Ele, então, juntou toda a força, golpeando
em cheio a criatura...
O crânio de Cid se partira em várias partes
diferentes. Espirrando sangue e dentes para todos os lados!
O corpo logo ficou molenga e despencou para
trás. Chris se levantou imediatamente.
— Taylor! — chamou pela garota, correndo em
sua direção. Taylor piscou os olhos repentinamente, mas já não parecia
consciente do que estava acontecendo. Sua cabeça se inclinou para o lado.
— Pode me ouvir? — perguntou com urgência,
e seus olhos correram pelo que restara dos braços da garota. Cid fizera um
estrago e tanto.
— ZACK! — gritou por ajuda. — O QUE EU
FAÇO?
A resposta fora simples e direta.
— Primeiro acabe de destruir o corpo!
— Quê?! — perguntou Chris voltando-se para
o amigo.
Dedos finos e frios se fecharem em volta de
seu pescoço. Cid sufocou Chris por poucos segundos, quase quebrando seu
pescoço.
— Já identifiquei o que está acontecendo. —
comentou Zacarias, como se analisasse o final de um filme. — É a antiga
maldição Gildelia Lehmann!
Chris partiu o braço do diretor em três
partes inutilizando-o.
— Gild o quê?!
— Gildelia Lehmann! — repetiu. — Ah esqueça
isso! Traga-o para o círculo!
Zack se levantou e retrocedeu alguns passos,
exibindo o grande círculo que traçara em poucos minutos.
Chris partiu o outro braço de Cid e o
arrastou como pôde para dentro do círculo. E ainda que sua cabeça e braços
estivessem inutilizados, havia em algum lugar uma estranha energia que ainda
resistia.
Gritos agudos encheram o corredor, revelando
dezenas de sombras negras.
— Mas que droga! — suspirou Chris alarmado,
prosseguindo até o círculo como podia.
As luzes de emergência falharam, apagando
completamente.
— Continue em frente! — ordenou a voz de
Zack.
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O garoto se manteve firme, caminhando
lentamente até notar o corpo de Cid se debater. Ao que lhe pareceu, sentia dor
pela primeira vez. Os dois corpos haviam cruzado o círculo. Houve um lampejo, e
Chris saltou para trás em tempo do cadáver queimar em uma combustão espontânea.
Não houve tempo para ele concluir o que
acabara de acontecer, e novamente a voz de Zack, soou.
— Se quer salvar a vida da garota é melhor
agir rápido!
As luzes de emergência voltaram a funcionar.
Por um instante o garoto pôde enxergar as sombras negras como carvão se
amontoarem ao redor de Taylor.
Chris adiantou-se para ajudá-la. Os braços
da garota estavam completamente destruídos, mastigados em várias partes. Taylor
já não demonstrava sinais vitais, apenas encarava o teto com os grandes olhos
azuis, que pouco a pouco se tornavam tão brancos quanto as paredes.
— Droga Zack! — lamentou Chris, sentindo os
olhos arderem — Ela está muito ferida! O que eu faço?
O amigo emergiu ao seu lado, e os olhos
caíram sobre a garota. Por alguns segundos Zack contraiu o rosto. Não era
excepcionalmente uma imagem bonita.
— Uhm! É realmente terrível! — Ficou
segundos em silêncio enquanto analisava as opções.
Chris olhava Taylor estirada ao chão, via
também um Zack pensativo. Seu peito subia e descia, já não podia conter o
desespero.
— Realmente muito difícil... Não sei...
Talvez, talvez ajude! Isso! Use seu sangue! — concluiu apanhando uma pequena
lâmina das vestes, e atirando-a ao garoto.
— Seja rápido, use seu sangue para
revivê-la!
Houve alguns segundos de indecisão, onde
Chris avaliara as chances disso dar certo.
— Os seus poderes curativos podem ajudá-la!
Duvido que alguém já tenha experimentado antes, mas de qualquer forma não temos
muitas escolhas, não é?!
Chris assentiu, apanhando a lâmina. Mesmo
que mal tivesse contato com Taylor, vê-la pela última semana, se tornara uma
das melhores coisas que acontecera em sua vida.
A lâmina estremeceu quando ele perfurou o
próprio pulso. E então se inclinou para frente, apanhando o braço da garota, e
com as mãos trêmulas derramou do próprio sangue, diretamente na corrente
sanguínea dela.
— Por favor, sobreviva! — murmurou. Mal
podendo conter o pânico na voz. — Você não pode morrer assim! Não vou permitir.
O corpo de Taylor não demonstrou nenhuma
reação. A cada segundo, parecia ainda mais próxima a morte.
Zack apanhou o ombro do amigo.
— Você tentou, cara!
Ele negou.
— Não vou desistir... Ela vai ficar bem, eu
tenho certeza!
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