domingo, 6 de maio de 2012


Chris Beomont

— Capítulo oito —
Taylor Collins

A forte tempestade tornara a inevitável invasão da sala de química mais fácil e segura. Chris que havia se escondido após o término das aulas. Auxiliara Zack em sua entrada clandestina. Ainda que não concordasse plenamente com a ideia.
    — Vamos pegar a especiaria e cair fora, certo?! — confirmou enquanto ele e o amigo percorriam os solitários corredores do prédio B.
    — Claro que sim! — respondeu um Zacarias pouco convincente. — É aqui?! — perguntou segundos depois, parando de chofre à frente do laboratório de química.
   Chris fizera que sim com a cabeça, e por uma fração de segundos imaginou se Zack já não havia invadido o colégio anteriormente.
    — Abra! — e a porta girou para o lado dando passagem.
   Os olhos do homem se estreitaram, e antes que o garoto pudesse adentrar a sala, Zack tornou a falar.
    — Eu entro sozinho, vigie o corredor!
   Chris se voltou para ele contrariado, seus olhos exibiam sua total desconfiança. Sabia o quanto Zack desprezava regras e leis humanas. E com esse pensamento, temeu que o amigo furtasse do laboratório o suficiente para chamar atenção. Após alguns segundos se deu por vencido e liberou a passagem para a sala.
    — Seja rápido! — resmungou, enquanto Zack desaparecia para dentro da porta.
   Chris havia perdido muitos anos de sua vida internado no hospital psiquiátrico Cezar Silld, e ainda que pudesse parecer besteira para o amigo, era impossível não temer que as tarefas que precisava cumprir, acabassem causando algum problema para ele ou sua família. Sobretudo, Zack era seu primeiro contato com a corte. E não seria sábio contrariá-lo.
   Após alguns minutos, Zacarias emergiu de volta para o corredor.
    — Vamos!
   Chris assentiu, agradecendo a rapidez com que ele tratara a invasão, e com grande alívio seguiu Zack, examinando a mochila que ele carregava nas costas. Sem sombra de dúvida, parecia repleta de objetos.
    — Você tomou cuidado para não notarem o roubo, não é?! — fora impossível conter a pergunta.
    — Claro! — respondeu Zack sem pestanejar. — Estou acostumado com esse tipo de trabalho!
O garoto assentira descrente, torcendo para que fosse verdade.
    — Espero que sim! — resmungou mais para si mesmo do que para o companheiro...
   Então, algo o impediu de seguir em frente, havia uma estranha energia pairando sobre o ar. Uma energia baixa, e sombria...
    — O quê?! Perguntou Zack que andava à frente, virando-se para encará-lo.
    — Você sentiu? Sentiu isso?
    — Não senti nada! Agora vamos, teremos uma noite cheia. Negligenciou Zack, apanhando Chris pelo braço.
   A energia se tornou ainda mais poderosa.
    — Espere! — respondeu rapidamente, desvencilhado-se de suas mãos. — Tem algo errado, algo muito errado.
   Zack contraiu a face, visivelmente irritado. E daí que tivesse algo de errado com o lugar. O colégio não era de sua conta e depois de roubar tudo o que precisava, já não via motivos para se manter ali.
    — Sempre tem alguma coisa errada, Chris! Vamos embora. Independendo do que seja, não é da nossa conta.
   Chris não cedera. Ao invés disso, deu as costas para o companheiro, refazendo o caminho que havia feito. Zack que a essa altura sentia-se terrivelmente contrariado, o seguiu corredor adentro.
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    — O que você está vendo? — perguntou. E o desinteresse se tornou nítido em sua voz.
    — Não estou propriamente vendo, e sim sentindo. — respondeu ausente, adentrando o longo corredor, até chegar à frente de uma grande porta dupla.
    — Parece vir daqui! — suspirou intrigado, e seus olhos correram por um delicado letreiro de bronze: Escritório de Cid Artt.
   Zack se manteve relutante.
    — Vamos embora! — rosnou impaciente.
    — Não! — contestou Chris examinando a porta. — Tem alguma coisa realmente estranha...
   Ainda que não pudesse descrever, em seu íntimo, sabia que se ignorasse o que sentia, poderia se arrepender amargamente por isso.
   Zack bufou irritado, e retirou do bolso um pequeno giz preto.
    — Pegue! — avisou atirando o material pelo ar.
   Chris o apanhou com grande destreza, e seus olhos correram pelo giz, que conhecia bem.
    — É só moer, não é?!
   O homem confirmou com a cabeça, ainda mais impaciente do que antes.
    — Apenas jogue as cinzas para o ar.
   Chris assentiu, esmagando o giz com a palma da mão.
    — Vamos! — reclamou Zack. — Acabe logo com isso!
   O garoto mirou a porta atirando as cinzas em sua direção. Por uma fração de segundos a poeira negra pairou pelo ar, como se atingisse um recipiente de água, expandindo-se lentamente pela superfície.
   Zack que não contava com esse tipo de reação, arregalou os olhos.
    — Mas que droga é essa?
   A poeira negra ganhou ainda mais forma e, com a semelhança de um cometa, atingiu a porta dupla arrancando-a pelas dobradiças.
   Os dois homens pularam para trás. E teias negras surgiram por dentro do escritório de Cid Artt, o atual diretor.
    — Magia negra?! — certificou-se o garoto voltando-se para um Zacarias boquiaberto.
    — Não! — respondeu prontamente, analisando os vestígios negros que pairavam pelo ar.
As teias cintilavam, flutuando fantasmagoricamente.
    — É algo muito pior do que isso...
   O garoto engoliu em seco, impossibilitado de olhar para qualquer outro lado que não fosse o interior do escritório.
    — Em Acácia Artt?! Não entendo! O que atrairia algo assim por aqui?
    — Nem eu! E por sorte, isso não é da nossa conta, vamos?! — insistiu Zack, ignorando a sala que a cada segundo se tornava mais escura.
   Chris congelou.
    — Um minuto... Estou vendo alguma coisa! — imagens pouco nítidas formaram-se em sua mente.
   Zacarias bufou irritado. Sabia que uma maldição poderosa havia sido usada contra alguém, provavelmente o dono do escritório à frente. E o mais sensato a se fazer era evitar quem conjurara esse tipo de poder.
    — Quantos são? — perguntou segundos depois, percebendo que não adiantaria arrastar Chris para fora do colégio.
    — Um... Talvez dois... Ainda não tenho certeza...
   Zack engoliu em seco.
    — Existe algum tipo de risco? Algum risco para nós?
   Chris se esforçou o máximo para que as visões que flutuavam por sua mente se tornassem mais nítidas. E quando tornou a falar, sua resposta fora categórica.
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     — Sim... Existe um grande risco! Posso sentir uma fome devastadora... Algum tipo de criatura recém nascida...
    — Ou recém criada! — atalhou Zack. — O.k! Então vamos embora, antes que isso nos traga problemas.
   Chris ignorou sua ordem.
    — Está se aproximando de algum humano... vai atacá-lo...
   A mão firme de Zack se fechou em torno de seu braço, e então ele disse.
    — Não queria estar na pele dele, vamos?!
Chris pôde sentir o estômago congelar.
    — Taylor! — exclamou com urgência na voz. — Vai atacar a Taylor...
Zack, que já seguiu em frente, se voltou para trás com brutalidade.
    — Antes ela do que você...
    — Não! — gritou em protesto. — Você não está entendendo, ele vai atacar a Taylor, vai matá-la!
    — E quem se importa? Não somos super-heróis Chris, não interferimos no ciclo.
   Chris desacatou sua ordem. Sentia como se um trem desgovernado o tivesse atropelado. Não deixaria... Não permitiria que nada, nem ninguém fizessem mal a garota.
   Zack previu sua atitude, apanhando rapidamente seu braço.
    — Não pense em quebrar o ciclo! Se ela puder defrontá-lo, é porque chegou sua hora!
    — NÃO! — gritou, atirando o companheiro para o lado, e disparou pelo corredor sem se preocupar em achar uma desculpa para salvar a vida da garota... Repentinamente, ingressar no mundo que tanto sonhava, deixara de ser importante... Taylor era mais. Mais do que ele pudesse imaginar!
   Seu coração pulsava acelerado, e o ar parecia ter deixado de existir... Precisava ser rápido... O corredor parecia interminável... Então Chris alcançou as escadarias. Descendo por elas como uma bala. Terceiro andar — Segundo andar — primeiro andar — Térreo... E enfim, o último lance de escadas que levava até o túnel subterrâneo. Chris saltou os últimos quinze degraus, irrompendo pela porta de metal que dava acesso ao túnel...
   O coração apertado, como se uma mão invisível se fechasse sobre ele.
   Taylor gritava por ajuda. O garoto entrou pelo túnel correndo em disparada. A poucos metros de distância se encontrava a garota, tentando se desvencilhar das mordidas do diretor.
    — Taylor!
   Ela já parecia sem forças para continuar. Taylor estava caída no chão, coberta de sangue enquanto o homem de cabelos grisalhos a prendia, mordendo seu braço de uma forma voraz.
Chris parou por um segundo, analisando a cena. Precisava tirá-lo de cima dela, sem que se machucasse ainda mais.
   Zack chegou pouco depois, derrapando atrás do garoto.
    — Odeio correr sem motivos! — rosnou de uma forma agressiva, enquanto tentava recuperar o ar.
   As luzes de emergência oscilaram. Houve uma pancada, e Chris fora derrubado por uma força descomunal. Mandíbulas ferozes se fecharam próximo ao seu pescoço, e ele precisou de toda a força para evitar a mordida... O fedor de sangue, a apenas centímetros de seu nariz.
    — Não deixe que ele o morda! — soou a voz de Zack vinda de algum lugar.
   As luzes de emergência oscilavam como nunca, e Chris já não conseguia se adaptar a claridade.
   Suas mãos se fecharam sobre o maxilar do homem que horas antes era um senhor calmo e educado. Cid havia se tornado um mostro; uma espécie de demônio, ou amaldiçoado... O que era exatamente? Chris não sabia dizer... Apenas que não poderia ser mordido por ele. Precisava agir rápido.
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    Suas mãos firmes sobre o maxilar do diretor se contraíram, e segundos depois, Chris quebrara seu pescoço, até sentir os ossos se tornarem migalhas.
    — Isso não vai adiantar! — informou Zack pouco atrás de onde estavam.
   Chris o encarou com a imagem invertida, e ainda lutando com Cid, vislumbrou Zack ficar de joelhos, e traçar o chão com outro giz, de cor negra.
   O garoto contraiu os joelhos, e com o auxílio dos braços atirou o velho para trás. Cid rodopiou pelo ar, caindo de pé, como a habilidade de um gato.
    — Oh droga!
   Não houve tempo para mais nada, o diretor agora investia contra o garoto, ainda mais rápido do que da primeira vez...
   Chris, que olhava preocupado para Taylor, mal teve tempo de se proteger, sentindo dentes afiados perfurarem os músculos do braço esquerdo. Ele urrou de dor.
    — Eu disse para não deixá-lo te morder! — gritou Zack parecendo zangado.
   Era como se tudo ao redor tivesse sido apagado, e um novo teste posto em andamento.
    — Ainda não sabemos que tipo de coisa você esta enfrentando... Pode ser que seja venenoso!
As mandíbulas continuaram a se fechar rapidamente à procura de sua carne.
    — Você precisa destruir completamente o corpo! — gritou Zack, traçando o chão com uma mistura de símbolos e palavras.
    — Certo! — respondeu o outro afobado, segurando a cabeça do diretor com a mão esquerda, e com a direita fechada em punho.
   Ele, então, juntou toda a força, golpeando em cheio a criatura...
   O crânio de Cid se partira em várias partes diferentes. Espirrando sangue e dentes para todos os lados!
   O corpo logo ficou molenga e despencou para trás. Chris se levantou imediatamente.
    — Taylor! — chamou pela garota, correndo em sua direção. Taylor piscou os olhos repentinamente, mas já não parecia consciente do que estava acontecendo. Sua cabeça se inclinou para o lado.
    — Pode me ouvir? — perguntou com urgência, e seus olhos correram pelo que restara dos braços da garota. Cid fizera um estrago e tanto.
    — ZACK! — gritou por ajuda. — O QUE EU FAÇO?
   A resposta fora simples e direta.
    — Primeiro acabe de destruir o corpo!
    — Quê?! — perguntou Chris voltando-se para o amigo.
   Dedos finos e frios se fecharem em volta de seu pescoço. Cid sufocou Chris por poucos segundos, quase quebrando seu pescoço.
    — Já identifiquei o que está acontecendo. — comentou Zacarias, como se analisasse o final de um filme. — É a antiga maldição Gildelia Lehmann!
   Chris partiu o braço do diretor em três partes inutilizando-o.
    — Gild o quê?!
    — Gildelia Lehmann! — repetiu. — Ah esqueça isso! Traga-o para o círculo!
   Zack se levantou e retrocedeu alguns passos, exibindo o grande círculo que traçara em poucos minutos.
   Chris partiu o outro braço de Cid e o arrastou como pôde para dentro do círculo. E ainda que sua cabeça e braços estivessem inutilizados, havia em algum lugar uma estranha energia que ainda resistia.
   Gritos agudos encheram o corredor, revelando dezenas de sombras negras.
    — Mas que droga! — suspirou Chris alarmado, prosseguindo até o círculo como podia.
   As luzes de emergência falharam, apagando completamente.
    — Continue em frente! — ordenou a voz de Zack.
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    O garoto se manteve firme, caminhando lentamente até notar o corpo de Cid se debater. Ao que lhe pareceu, sentia dor pela primeira vez. Os dois corpos haviam cruzado o círculo. Houve um lampejo, e Chris saltou para trás em tempo do cadáver queimar em uma combustão espontânea.
   Não houve tempo para ele concluir o que acabara de acontecer, e novamente a voz de Zack, soou.
    — Se quer salvar a vida da garota é melhor agir rápido!
   As luzes de emergência voltaram a funcionar. Por um instante o garoto pôde enxergar as sombras negras como carvão se amontoarem ao redor de Taylor.
   Chris adiantou-se para ajudá-la. Os braços da garota estavam completamente destruídos, mastigados em várias partes. Taylor já não demonstrava sinais vitais, apenas encarava o teto com os grandes olhos azuis, que pouco a pouco se tornavam tão brancos quanto as paredes.
    — Droga Zack! — lamentou Chris, sentindo os olhos arderem — Ela está muito ferida! O que eu faço?
   O amigo emergiu ao seu lado, e os olhos caíram sobre a garota. Por alguns segundos Zack contraiu o rosto. Não era excepcionalmente uma imagem bonita.
    — Uhm! É realmente terrível! — Ficou segundos em silêncio enquanto analisava as opções.
   Chris olhava Taylor estirada ao chão, via também um Zack pensativo. Seu peito subia e descia, já não podia conter o desespero.
    — Realmente muito difícil... Não sei... Talvez, talvez ajude! Isso! Use seu sangue! — concluiu apanhando uma pequena lâmina das vestes, e atirando-a ao garoto.
    — Seja rápido, use seu sangue para revivê-la!
   Houve alguns segundos de indecisão, onde Chris avaliara as chances disso dar certo.
    — Os seus poderes curativos podem ajudá-la! Duvido que alguém já tenha experimentado antes, mas de qualquer forma não temos muitas escolhas, não é?!
   Chris assentiu, apanhando a lâmina. Mesmo que mal tivesse contato com Taylor, vê-la pela última semana, se tornara uma das melhores coisas que acontecera em sua vida.
   A lâmina estremeceu quando ele perfurou o próprio pulso. E então se inclinou para frente, apanhando o braço da garota, e com as mãos trêmulas derramou do próprio sangue, diretamente na corrente sanguínea dela.
    — Por favor, sobreviva! — murmurou. Mal podendo conter o pânico na voz. — Você não pode morrer assim! Não vou permitir.
   O corpo de Taylor não demonstrou nenhuma reação. A cada segundo, parecia ainda mais próxima a morte.
   Zack apanhou o ombro do amigo.
    — Você tentou, cara!
   Ele negou.
    — Não vou desistir... Ela vai ficar bem, eu tenho certeza!
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